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Quando O Búfalo da Noite ataca

Luiz Zanin Oricchio

11 de novembro de 2007 | 02h15

Não é costume iniciar o comentário de um filme pelo roteiro. Mas, no caso de O Búfalo da Noite, isso se justifica. Afinal, Guillermo Arriaga, que assina o texto junto com o diretor Jorge Fernandez Aldana, é mais famoso que seu parceiro que comanda a câmera. Arriaga é, ao menos em parte, responsável pelos sucessos dos filmes de seu compatriota Alenjandro González Iñárritu em filmes como Amores Brutos, 21 Gramas e Babel. Agora, a dupla se desfez. Veremos o que fará Iñárritu sem seu parceiro de texto.

Arriaga esteve no Brasil recentemente, deu entrevista no Roda Viva e reivindicou os direitos dos roteiristas, em geral colocados em segundo plano quando se trata de creditar o sucesso (ou o fracasso) de uma produção cinematográfica. Outra característica de Arriaga, além de bom defensor de seus direitos de artista, é a radicalidade de propostas. Quem conhece os filmes de Iñárritu já sabe disso. Quem for ver este O Búfalo da Noite, confirmará o universo temático do mexicano novamente aqui expressado.

Basta atentar para o teor da história. Um triângulo amoroso, mas dos menos convencionais que se possa imaginar, uma vez que um dos vértices é formado por Gregório, rapaz esquizofrênico que entra e sai de hospitais psiquiátricos. Ele namora uma moça, Tânia, e tem em Manuel seu melhor amigo. Nas ausências de Gregório para tratamento, Tânia e Manuel se aproximam. Então… E então é isso, um universo em desequilíbrio que, em parte, é expresso pela direção cinematográfica de Aldana.

O filme é impulsivo, como os personagens. Isso se traduz em linguagem nervosa, áspera, instável, com movimentos de câmera bruscos, sem ponto de estabilidade a propor para o espectador. Talvez Aldana insista um pouco a mais no registro brutalista (também constante nos filmes de Iñárritu), o que termina por enfraquecer o efeito, pois, como se sabe, quando a tensão se instala em patamar alto, deixa de produzir a mesma sensação no espectador que, até por um movimento de defesa, filtra sua percepção da obra. Esse, aliás, é um dos problemas deste cinema mexicano da jovem geração. Não acreditam no poder da intromissão brusca da violência, como ensinou um espanhol que viveu e morreu no México, um certo Luis Buñuel.

Em todo caso, O Búfalo da Noite não deixa de ser uma fonte de inquietação, e é bem a isso a que se propõe. Não se trata de registrar a história de Gregório como caso isolado em uma ilha de normalidade mas, pelo contrário, buscar nele o sintoma de um meio já patológico em si. Será assim colocado de maneira mais clara quando Tânia e Manuel recebem a estranha herança deixada por Gregório, uma caixa contendo fotos e cartas. E que dá início à trip na qual culpa e loucura não deixam de se misturar em coquetel explosivo.

É perceptível, nesse tipo de filme, a expressão de traços contemporâneos. Já não se acreditam em projetos coletivos, a ação individual parece a única alternativa. E, nela, o processo amoroso ocupa posição central. O indivíduo o vive de maneira exacerbada, como se a salvação ou a danação dele dependesse. O fato de um dos três vértices do triângulo ser diagnosticado como insano não impede que a loucura (entendida de maneira prosaica como desvio da norma ou da razão) contamine os outros.

Parte dessa nova geração mexicana está aqui em ação. Arriaga e Aldana, no roteiro e direção; Diego Luna no elenco. Falta a ela, talvez, uma ligação mais precisa do mal-estar in extremis com seu contexto. Articulação que tenta, por exemplo, outro dos membros dessa mesma geração e círculo de amigos, o talentoso Gael García Bernal, que também fez sua estréia na direção com Déficit. Neste, ainda inédito comercialmente (passou na Mostra de Cinema), a alienação é ligada àquilo que a produz. O Búfalo da Noite é mais som e fúria. Não deixa indiferente.

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