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Quando me Apaixono

Luiz Zanin Oricchio

06 de agosto de 2010 | 16h21

A atriz Helen Hunt estreia na direção de longas-metragens com um delicado filme sobre relacionamentos humanos. Ela mesma interpreta a protagonista de Quando Me Apaixono, a professora April Epner, que enfrenta crises profundas, e em sucessão. O marido a abandona, a mãe adotiva morre e a mãe biológica entra em contato com ela. Como se não bastasse, no meio do processo, se apaixona pelo pai de uma de suas alunas. Ufa!

O melhor do filme, baseado em romance de Elinor Lipman, está no contraste entre a introvertida April e sua mãe biológica, Bernice, um furacão de vitalidade interpretado por Bette Midler, no papel de uma apresentadora de um programa popular de TV. Uma é toda interiorizada como uma ostra e, adivinha-se, cheia de complexos e frustrações. A outra é toda para fora, famosa, glutona, mentirosa. Será uma difícil aproximação e o filme se apóia nesse processo entre contrários.

Quando me Apaixono é um filme de narrativa simples, sem grandes invenções formais. Nem por isso rotineiro. A simplicidade está ali para que não encubra o trabalho do elenco. É um filme de atriz e atrizes detestam quando são colocadas em segundo plano, como fazem alguns diretores. Neste caso, em que a atriz é a própria cineasta, o risco não existe. Não há movimentos de câmera, contorcionismos formais ou saltos no tempo para dispersar a atenção do público. Este irá se concentrar nas falas e nos rostos dos intérpretes. Ou melhor, “das” intérpretes, já que o show mesmo é a fricção entre Helen e Bette. Isso não quer dizer que haja exibicionismo. Existe apenas concentração sobre o trabalho do elenco, o que é uma opção de quem dirige.

Em filigrana, o filme traz um comentário sobre a desumanização da vida contemporânea, a solidão da grande metrópole e a facilidade com que valores tradicionais (família, filhos, amizade) são esquecidos em favor da carreira profissional, da competição pela vida. Nada disso é muito explicitado, mas está lá. April, a personagem de Helen Hunt, é uma mulher frágil, sofrida, que busca dar um sentido à existência, sem se aprofundar em grandes filosofias. Sua “antagonista” é uma criatura que pensa menos e age mais. Em aparência, é mais bem resolvida, mas se verá que tem seus problemas e limitações. Como todos, aliás. Em seu primeiro trabalho como diretora, Helen poderia ter feito uma caricatura. Fez apenas um filme simples e humano.

(Caderno 2, 6/8/10)

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