Quando Estou Amando
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Quando Estou Amando

Luiz Zanin Oricchio

01 de agosto de 2008 | 19h21

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Ao terminar de ver este Quando Estou Amando, sentimo-nos tentados a perguntar o que seria do filme não fosse Gérard Depardieu. Não, não se trata de uma crítica negativa. O filme de Xavier Giannoli é uma graça. Mas deve-se admitir que Depardieu dá a ele um charme que de outra forma não teria, aquele encanto todo particular que empresta um grande e consagrado ator a um papel que tendemos a chamar de “pequeno”.

E é claro também que sabemos muito bem que não existem papéis pequenos para grandes atores. Em todo caso, para quem já atuou com Truffaut e Bertolucci, já foi Cyrano de Bergérac, Rodin e Obelix, além de ter vivido o Coronel Chabert e o Jean Valjean de Os Miseráveis interpretar esse modesto cantor de restaurante, de cabelos tingidos e ar tanto sedutor quanto desamparado, deve ter sido uma experiência e tanto.

Depardieu é Alain Moreau, uma voz que dá para o gasto, mas presença marcante no palco. Aliás, pequenos palcos de restaurantes, feiras e convenções. Mas, que importa? Na região de Clermont-Ferrand, ele é o bom. Ganha a vida e corações com facilidade. A história é a do seu encontro com uma jovem meio complicada, a corretora de imóveis Marion (Cécile de France, jeitinho de Jean Seberg), com um passado já pesado detrás de si.

O que há aí é o encontro de homem e mulher, no quadro de uma vida pequena, mas nem por isso insignificante. Alain Moreau não é um zé-ninguém. É homem de certa respeitabilidade em seu ambiente restrito. Está à procura de uma casa. Mas talvez busque algo além. Marion também busca. Não sabe direito o quê. Como a maioria das pessoas, está perdida depois de um começo meio incerto. Ambos, mas de maneiras diferentes, se indagam sobre o sentido disso tudo que, pomposamente, chamamos “existência” e que não passa da transitória concessão biológica destinada a cada um de nós.

Não é, no entanto, intuito de Giannoli discutir essas grandes questões, embora elas estejam sempre latentes na mais banal das histórias. Perguntas sobre o sentido de tudo (mesmo que se desconfie de que afinal não existe nenhum) estão presentes numa fábula remota como na novela das 8, na filosofia de um pré-socrático como na conversa de botequim. Subjaz também a esse raro e dificultoso encontro entre a mocinha e o coroa.

Mas o que há aqui, além de Depardieu (e de Cécile, que é uma gracinha) para explicar o encanto de filme tão simples? Talvez exatamente isso, a simplicidade, que se acompanha de boa dose de sensibilidade. Se os termos rimam, é bom que se diga que também andam juntos nessa história a que se pode atribuir ainda outra qualidade, a delicadeza.

Esses cuidados todos estão na maneira como Alain e Marion vão visitando casa após casa, abrindo portas e velhos cômodos, como se a cada um abrissem a alma um para o outro. É um filme de climas e descobertas, que obviamente sem ser nenhuma obra-prima, longe disso, satisfaz um tipo de espectador que busca outra coisa além da dieta habitual de violência, correrias e estresse. Esse ar deliciosamente retrô, à parte Depardieu e Cécile, é o charme maior de Quando Estou Amando. Um filme que faz bem ao público. Não é pouca coisa.

(Caderno 2, 1/8/08)

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