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Quando canta a voz da rua

Luiz Zanin Oricchio

01 de novembro de 2011 | 12h31

 

Quando terminou Corinthians e Avaí, a turma do boteco da esquina na minha rua começou a cantar o hino do Timão. Euforia de bebum, turbinada pela cerveja e outros aditivos? Talvez. Mas quando o canto começa a subir dos bares e passear pelas ruas, é prenúncio de que algo está por vir. O título? Sim, na verdade pode vir, como pode não vir, mas está bem aí, ao alcance da mão, como talvez nunca tenha estado. Em campeonato tão equilibrado tudo pode mudar, é óbvio, mas vitória de virada dá moral à equipe como nenhuma outra. Virada indica superação – e foi isso que se viu no Pacaembu.

No todo, acho que a rodada foi bem sintomática. O Corinthians virando o jogo de forma sofrida, à sua maneira, como gostam de lembrar os torcedores mais antigos, aqueles remanescentes dos longos anos na fila, calejados no sofrimento e nas gozações de rivais. O Vasco suando sangue, motivado até o limite, mas não conseguindo passar pela defesa do São Paulo. Tudo pode se inverter nos próximos jogos, é claro. Mas algumas coisas ficaram bem claras, já nesta.

Primeiro, que o Corinthians tem um time sólido, porém nervoso. Cabe a Tite acalmá-lo. Quando estava perdendo do Avaí, atacava de qualquer jeito. No segundo tempo voltou mais objetivo e, dessa forma, conseguiu o empate. A partir do qual o nervosismo trocou de lado, porque o Avaí também luta por alguma coisa preciosa, que é a permanência na primeira divisão, e dessa forma veio a virada.

Segundo, que o Vasco, um tanto desfalcado, não foi o time de outros jogos. Encontrou pela frente um São Paulo um tanto mais “cascudo”, segundo a definição do técnico Emerson Leão em uma antiga passagem pelo clube. Desta vez, Leão, desbocado, disse que o elenco atual não apresentava essa característica. Faltou só dizer que os jogadores atuais eram mais frouxos. Não disse, mas se deduz. Talvez até como forma de mostrar que o novo treinador está errado, os boleiros se empenharam a fundo. Era como um princípio de honra não perder para o Vasco em São Januário. E assim aconteceu. É claro, também, que o São Paulo joga por si. Talvez já esteja um tanto distante da disputa pelo título, mas uma vaga na Libertadores ainda é objetivo perfeitamente realizável. Ou seja, cada um luta por si e é isso que faz a graça do campeonato.

Também isso se viu na rodada de sábado, quando o jogo Santos x Atlético-PR transformou o Pacaembu em palco para uma grande exibição individual de Neymar. O Santos precisava ganhar para ficar tranquilo e pensar no Mundial. O Atlético para tentar evitar a degola. Mas como todos sabe, só deu Neymar. O garoto marcou quatro gols e ainda teve outro mal anulado pela arbitragem. Seriam cinco. Eternos insatisfeitos (conversei com alguns após o jogo) se queixaram: “Ah, mas dois foram de pênalti”. E daí? Neymar não foi muito criticado por desperdiçar pênaltis? Agora que está cobrando bem não deve ser elogiado? E o quarto gol, uma pintura? E os dribles, passes, arrancadas, o tormento constante para a defesa adversária, a instabilidade que provoca no jogo?

Na verdade, o Santos, do meio de campo para frente, só tem uma tática: bola no pé de Neymar e vamos ver o que acontece. Em geral acontece coisa boa. Isso basta? Pode até bastar num dia muito brilhante do craque. Mas não inspira confiança. Eu prefiro a bola mais bem trabalhada, passando de pé em pé, sem ligação direta, sem ser rifada por jogadores menos habilidosos. Mas, como andou dizendo o Tostão, o jogador brasileiro mostra desamor à bola, quer se livrar dela o mais rápido possível, como se ela queimasse no pé. Tudo isso para dizer que, mesmo no Santos, e apesar do brilho individual de Neymar, falta o futebol coletivo mais convincente. A luz do craque ofusca a realidade.

(Esportes, Estadão)

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