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Quando a rainha Elizabeth I virou santa

Luiz Zanin Oricchio

19 Fevereiro 2008 | 19h42

Elizabeth: A Era de Ouro é o segundo filme da trilogia prometida pelo diretor Shekhar Kapur sobre a rainha inglesa. O primeiro saiu em 1999 e ganhou sete indicações para o Oscar (inclusive o de melhor atriz, para Cate Blanchett). Ficou apenas com o de maquiagem. Neste ano, Cate concorre de novo, e é tida como forte candidata (ao lado de Julie Christie) por especialistas no prêmio. Pode de fato ganhar, e sua atuação é o menor dos problemas deste filme histórico.

A questão é que não se trata de uma cinebiografia de rainha (com tudo o que isso costuma comportar de mistificação histórica), mas de uma verdadeira hagiografia. Pouco de dimensão humana é concedida a essa heroína da história inglesa na versão dirigida por um indiano de Bollywood (o cinema popular daquele país) e interpretado por uma atriz australiana. E essa santificação se dá na maneira mesma como sua história é apresentada na tela.


Por exemplo, os movimentos de Elizabeth I são acompanhados por música tonitruante, que não dá trégua ao espectador e se destina a conferir caráter épico ao menor dos seus gestos. Várias vezes, Elizabeth é mostrada envolta em luz branca, aquela destinada aos anjos e outras divindades. Com o devido acompanhamento musicial, claro. Quando uma batalha se apresenta, o visual muda, e Cate Blanchett é vestida com uma armadura, os cabelos longos se soltam, cavalga um cavalo branco, e passa a ser, figurativamente, uma Joana D’Arc britânica. Por ironia, a verdadeira Joana, como se sabe, era francesa, e foi queimada viva por ordem dos ingleses em Rouen, durante a Guerra dos Cem Anos.

Elizabeth (1533-1603) é de um tempo posterior, mas, como Joana (1412-1431, apelidada de Jeanne la Poucelle), era conhecida como ‘a virgem’. Esse é um ponto potencialmente interessante do filme, mas não explorado como se deve, pois poderia comprometer o mito. Insinua-se a tensão sexual entre a rainha e o pirata Walter Raleigh (Clive Owen), aventureiro que acaba detendo a Invencível Armada espanhola às portas de Londres. A batalha naval tem alguma graça, em que pesem os óbvios efeitos digitais. A outra batalha, a de alcova, Elizabeth perde para sua dama de companhia Bess (Abbie Cornish), que recebe as verdadeiras atenções de Raleigh.

Há um embate histórico que também ganharia se aprofundado, que é aquele entre Elizabeth e o fanático Felipe II (Jordi Mollà), da Espanha, que deseja conquistar a Inglaterra ’em nome da fé’, e lá restaurar o catolicismo. O pretexto é a execução da irlandesa e católica Mary Stuart (Samantha Morton), condenada por traição. Outro ponto que passa batido: as crises de consciência de Elizabeth por ter assinado a sentença de Mary, a prima conspiradora. Há outra oposição, que não faria mal ao filme se fosse levada mais adiante, que é o embate entre o fanatismo inquisitorial espanhol e o racionalismo inglês. Um embate entre trevas e luz, entre a censura ao espírito e a liberdade de pensamento. Sabe-se também que isso é em parte verdade, mas para que faça sentido não poderia ser tratado assim, de maneira ligeira. Elizabeth oferece-se, desse modo, como uma criatura em meio a conflitos vários, pessoais, políticos e religiosos, mas o projeto do filme não segue qualquer dessas possibilidades dramatúrgicas.

São, assim, frágeis as tentativas de humanizar a rainha, mesmo porque iria de encontro a um projeto de enaltecimento dessa representante de uma fase de afirmação britânica, que iria transformar o país no grande império mundial após a era de estabilidade em que governou. Essa efusão com a personagem não permite, no fundo, qualquer sentido crítico. Transforma uma grande luta política em coisa de criança e infantiliza a todos, personagens e platéia. Não fica por aqui. O terceiro da série já está prometido.

(Caderno 2, 18/2/08)