Quando a guerra se torna um vício
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quando a guerra se torna um vício

Luiz Zanin Oricchio

05 Fevereiro 2010 | 10h10

bige

Estranhos são os caminhos do cinema. Quando Guerra ao Terror, então chamado simplesmente de The Hurt Locker, concorreu no Festival de Veneza de 2008 ninguém ligou muito para ele. Parecia apenas um filme de guerra que trazia muito mais ação do que reflexão e, ainda por cima, disputava espaço com outro concorrente de mesmo tema e mesma nacionalidade, o muito superior Redacted, de Brian de Palma, inédito no Brasil.

Por tudo isso, talvez os distribuidores brasileiros tenham optado por lançar Guerra ao Terror diretamente em DVD. Mas, depois do auê em torno do Oscar (nove indicações e o fato de ser dirigido por Kathryn Bigelow, ex-mulher de James Cameron, cineasta de Titanic e do favorito deste ano, Avatar) resolveram, em boa hora, lançá-lo em cinema, o que acontece a partir de hoje.

Em Veneza, Kathryn contou que sua ideia surgiu da leitura do livro do jornalista Mark Boal (ele assina também o roteiro), que esteve na guerra do Iraque como correspondente do New York Times. Escreveu uma série de reportagens, transformadas no livro que lhe valeu um Pulitzer. Boal encontrou um ângulo original de abordagem, acompanhando um pelotão de elite ocupado na tarefa de desativação de bombas. Trabalho de alto risco, claro. A série de reportagens é considerada importante para a psicologia da guerra, pois detecta um tipo inesperado entre os soldados – o dos “adictos da guerra”. Pessoas, que embaladas pela adrenalina do alto risco, têm dificuldade para se reintegrar à monotonia da vida civil. Esse, o tema do livro, e também do filme.

Na entrevista, Kathryn lembrou da natureza dessa atividade. Por mais que a tecnologia tenha evoluído, em geral os soldados só dispõem de um par de pinças e um alicate para desmontar artefatos que podem fazer tudo voar pelos ares num raio de 300 metros. A começar pelo militar que está tentando tornar inofensivos esses “presentes” espalhados por todo o canto, em Bagdá. Outro dado interessante é que a maior parte dos componentes desse pelotão é formada por voluntários. É gente que procura de livre e espontânea vontade esse tipo de situação da qual a maior parte foge como do diabo em pessoa. “Notamos que, apesar de todo o terror da guerra e dessa situação específica, havia quem se fascinasse por tudo isso e não conseguisse viver sem esse estímulo”, disse.

A história ganha forma na figura de um novo integrante do pelotão antibomba, William James (Jeremy Renner), que chega para substituir o antecessor, morto em ação. James exibe uma coragem que beira a temeridade e, com suas atitudes intempestivas, põe em risco a sua segurança e a dos outros. Há muito de bravata em tudo isso, e mesmo na maneira como o filme descreve certo tipo de situação. Por exemplo, quando James desativa um conjunto de bombas instalado no porta-malas de um carro e, para trabalhar, tira o pesado equipamento de proteção que estava vestindo. “Já que vou morrer, que pelo menos seja sem passar o calorão trazido por essa roupa toda”, diz.

De resto, o filme é muito bem dirigido e interpretado. Kathryn, que tem preferência por filmes de ação, mostra-se à vontade nesse cenário de pesadelo que é Bagdá após a invasão americana. Como não tiveram permissão para filmar in loco, deslocaram-se para a Jordânia onde tudo foi rodado. A diretora tem senso de timing e dom para o suspense. O filme trepida de ação e tensão. Enfim, não há um erro perceptível na maneira de contar a história como um thriller, mas notam-se alguns senões. Por exemplo, a ausência da ambição que seria tentar entender a psicologia de personagens complexos como James. Eles são mostrados, e só. Outra coisa que não se concebe é a falta de qualquer tipo de reflexão política sobre a guerra no Iraque, ausência que se torna ainda mais dramática quando se pensa que o filme foi feito durante o período Bush.

Kathryn viu-se questionada sobre esses e outros pontos mas esgueirou-se em platitudes, como em geral acontece nas entrevistas. Defendeu a linguagem pouco criativa escolhida dizendo que tinha de manter-se nos limites do realismo para transmitir suas ideias. Para ser verossímil era obrigada a ser convencional, senão a coisa não funcionaria. Quem buscar, irá também encontrar clichês, como a amizade do herói com um garoto iraquiano, por exemplo.

Nesses limites, Guerra ao Terror funciona bem, mostrando tudo pelo ponto de vista norte-americano. Iraquianos, em seu país, são meros coadjuvantes.

(Caderno 2, 5/2/10)