As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Quando a alma não é pequena

Luiz Zanin Oricchio

09 de março de 2010 | 12h26

Percebi comentários contraditórios a respeito do clássico Portuguesa x Santos. Alguns disseram que o espetáculo previsto dos meninos da Vila não se repetiu. As circunstâncias do jogo  teriam conduzido a partida a uma zona de seriedade na qual não se admite espaço para firulas, etc. Porém, houve uma espécie de consenso ao se afirmar que a partida do Canindé havia sido a melhor até agora do Campeonato Paulista.

Acho válidas as duas análises, mesmo porque mantenho, como princípio de vida (e de colunista), não julgar os outros. Opinião é como cabeça – cada qual tem a sua e sabe o que dela faz; e ponto final. Não sou ombudsman da mídia dita especializada e me esforço por respeitar quem discorda de mim. Esta, aliás, é a única prática possível da liberdade, já que não existe vantagem alguma em respeitar quem pensa do mesmo jeito que nós. Difícil é aceitar o outro em sua diversidade, e no que ela nos contesta.

Dito isso, acrescento que, de minha parte, o gosto pelo espetáculo vem de outros aspectos e não necessariamente de um chapéu ou um gol espetacular. Claro, se vierem a finta desconcertante ou aquele gol de antologia, serão bem-vindos. Mas houve alguma coisa desse tipo entre Santos e Portuguesa? Não. O placar sequer foi dilatado – meros 1 a 1. Nenhum dos dois gols mostrou-se digno de uma placa no estádio. O da Lusa foi bem construído, e só. O do Santos aconteceu num bate-e-rebate comum, depois de muita pressão. De quem tanto se esperava, não veio grande coisa. Ganso esteve apagado. Robinho esforçou-se, mas não teve muito espaço. Neymar, tirando um ou outro lance isolado, não repetiu façanhas de jogos anteriores. E, no entanto, o espetáculo aconteceu. Por quê?

Talvez pela disposição das equipes. Mesmo marcado, e de maneira inteligente, o Santos não abdicou da sua melhor característica, a ofensividade. Pelo contrário. Quando as coisas não estavam dando certo, Dorival Jr. tirou um volante (Roberto Brum) e colocou um meia (Marquinhos). A opção deixou o Santos ainda mais vulnerável aos contra-ataques, mas aumentou a pressão em sua linha ofensiva. A Lusa jogou certo. Não optou por uma retranca mesquinha, mas já entrou sabendo que um time armado como o Santos deixa sempre espaços em branco na linha de defesa. Aproveitou-se disso e teve a partida nos pés em duas ou três ocasiões. Não matou, por isso tomou o empate. Foi essa dinâmica entre as duas equipes que pôs fogo no jogo e justificou o adjetivo “eletrizante” com o qual o caracterizaram. No final da partida, me lembrei de um verso do poeta português Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena/Quando a alma não é pequena”. O clássico foi ótimo porque os dois times pensaram grande.

E, por falar em grandes, a seis rodadas do término da fase de classificação, parece que a profecia inicial de que os quatro principais clubes do Estado iriam se classificar com facilidade para as semi-finais dificilmente irá se cumprir. Pelo menos um deve ficar fora. No momento, o Palmeiras está bem abaixo do G-4. Tem ainda chances de alcançá-lo. Mas o pior (dependendo do ponto de vista adotado) é que Botafogo e Santo André não parecem dispostos a vender barato essa vaguinha. Mal e mal, Corinthians e São Paulo estão chegando lá e, uma vez classificados, mesmo aos trancos, serão candidatíssimos ao título. Já o Palmeiras terá de ralar muito e vencer problemas internos para se poupar do primeiro vexame do ano.

Tendências: