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Proust na Cult

Luiz Zanin Oricchio

05 Janeiro 2007 | 14h25

Está nas bancas um número especial da revista Cult, dedicada a Marcel Proust. E daí?, perguntaria um apressadinho? Qual o ‘gancho’?, para usar o jargão jornalístico. Nenhum, digamos. Certo, uma nova edição de Em Busca do Tempo Perdido está sendo lançada, os livros são bonitos, mas o que interessa está lá, na antiga (e boa) tradução da Editora Globo, com nomes como Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade se revesando na pouco fácil tarefa de verter os enormes parágrafos de Proust para o vernáculo.

Em se tratando de Proust, vale o que Drummond disse para si mesmo: cansei de ser moderno; quero ser eterno.

Bom, mas a Cult traz textos inéditos de Alain de Bottom, Philippe Willemart, Bernard Brun e Guilherme Ignácio da Silva. E, cereja no bolo, um artigo inédito em português de André Gide. Como sabe todo aprendiz de proustiano, Gide era leitor da Gallimard quando Proust submeteu à editora o primeiro volume da Recherche…e foi recusado. Gide, dizem, passou o resto da vida atormentado ao perceber a dimensão do erro de avaliação. Perguntava-se se não teria recusado “algum outro Proust” que, desestimulado, teria desistido de escrever e privado a humanidade da sua obra. É um fardo e tanto. E, de fato, o artigo de Gide começa assim, quase como uma desculpa “…os julgamentos que fazemos de nossos contemporâneos são contraditórios…”.

O texto é o de uma carta a Angèle e, mais adiante, Gide afirma, entusiasmado: “Você me disse que freqüentemente a extensão das frases de Proust te deixa cansada. Mas aguarde meu retorno e lerei para você essas frases intermináveis em voz alta: como tudo se organiza de repente! Como os planos vão se escalonando! Como vai se aprofundando a paisagem do pensamento!”

Pois é, depois da recusa, várias exclamações em uma única frase. Assim é a vida.