‘Profissão: Repórter’ toca no nervo da condição humana contemporânea, a identidade em crise
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‘Profissão: Repórter’ toca no nervo da condição humana contemporânea, a identidade em crise

Revisão de 'Profissão: Repórter' reconfirma Antonioni como cineasta que toca no mais agudo da condição existencial contemporânea, colocando o cinema no mesmo plano intelectual da grande literatura ou da alta filosofia

Luiz Zanin Oricchio

17 Maio 2017 | 10h59

 

Conforme planejado, ontem fui ao Cinesesc rever Profissão: Repórter, de Antonioni. Cópia maravilhosa em DCP, plateia em êxtase diante desse imenso filme.

Bem, o primeiro registro a ser feito é que o famoso plano-sequência, no final, de fato começa no quarto do hotel, “atravessa” as grades da janela, sai à rua, mostra algum movimento, um velho que discute com uma criança, Maria Schneider que vaga por ali; depois há a chegada de um carro, do qual desce um personagem e, após, a polícia, com a mulher de Locke (Nicholson) a bordo. A câmera prossegue, sem corte, até mostrar, do lado de fora, e agora através das grades da janela, o corpo inerte de Nicholson. A mulher de Locke diz que não reconhece o corpo; Maria Schneider confirma que se trata do traficante de armas, Robertson, de quem Locke assumira a identidade. O plano dura vários minutos.

O plano que se segue a ele é tão impressionante quanto. Final de tarde, alguém que se afasta pela rua, ruídos, o dono do hotel que sai para fumar. Nada demais, é vida que segue…para os vivos. Locke, à esta altura, já é apenas passado e sumiu na poeira.

Que filme!

Em se tratando de um personagem que assume a identidade de um morto, era inevitável que Profissão: Repórter fosse comparado a O Finado Mattia Pascal, de Pirandello. Em especial se o comentarista for um escritor, e italiano, Alberto Moravia.

Em Trinta Anos no Cinema, do qual tenho a edição francesa, escreve o autor de O Desprezo (adaptado por Godard) e O Conformista (por Bertolucci): “Pirandello quer demonstrar, de maneira sarcástica e paradoxal, que a identidade é puro fenômeno social, quer dizer, nós existimos na medida em que os outros reconhecem a nossa existência; enquanto Antonioni parece pensar justo o contrário: que existimos, mesmo que sejam apenas sob a forma de um nó de sofrimentos, também e sobretudo fora da sociedade. O simbolismo discreto do deserto no qual Locke procura escapar à sua própria vida indica o verdadeiro tema da narrativa: o suicídio como único modo de se liberar de uma identidade que é a consciência existencial impossível de suprimir.”

Em sua inútil busca de outra vida, Locke se mata duas vezes. A primeira destruindo sua identidade civil, como faz o personagem pirandelliano; a segunda, a sua identidade física, deixando-se matar pelos que o perseguem pela identidade assumida de traficante de armas.

Profissão: Repórter é uma longa meditação, em forma de palavras mas, acima de tudo, imagens e sons, dessa paradoxal condição humana do homem contemporâneo. O ser em crise e impasse permanente. Retomo Moravia: “Por que Locke se mata? Provavelmente pela mesma razão por que muita gente se mata hoje em dia: por incapacidade de conferir à sua existência um valor simbólico ou uma significação que, de uma maneira ou outra, a transcenda.”

Com Michelangelo Antonioni, o cinema pensa. No mesmo nível da melhor literatura ou da mais alta filosofia.

Depois de rever seus filmes, como o cinema feito hoje em dia nos parece infantil…