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Proezas de Satanás

Luiz Zanin Oricchio

22 de novembro de 2007 | 09h05

BRASÍLIA

Para a abertura do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, a peça escolhida pela orquestra da cidade não poderia ser mais nacional – a Bachiana nº 7 de Villa-Lobos, cujos temas musicais foram usados no filme Menino de Engenho, de 1965. Nacional, sim, nacionalista, no sentido estreito do termo, não. Afinal, Villa foi inspirar-se em Bach para criar um som que fosse brasileiro e universal ao mesmo tempo. Talvez seja esta a inspiração profunda deste festival, plantado no planalto central do país em 1965 – soma apenas 40 edições porque esteve parado por três anos durante a ditadura militar.

Depois da música, os filmes. O bonito curta de Pedro Jorge de Castro, Brinquedo Popular do Nordeste, fala da pobreza mas também da inventidade brasileira. Filme de 1977, tem na direção de fotografia o agora consagrado Walter Carvalho. Em seguida, o longa, Proezas de Satanás na Vila do Leva-e-Traz, de Paulo Gil Soares, falecido em 2000. Filme muito aguardado porque havia muito não era visto. A restauração, ainda incompleta, teve de ser feita a partir de duas cópias, uma encontrada no Brasil, outra na França. Falta ainda digitalizar o longa e, aí sim, devolver-lhe as características originais. Mas a cópia que se viu em Brasília é pelo menos digna.

Presentes, para apresentar o filme, a filha do cineasta, Paula, dois dos atores principais, Emmanoel Cavalcanti e Joel Barcellos e a atriz Isabella. Cavalcanti fez um discurso condoreiro, ao seu estilo. Joel disse que o filme era muito atual pois reaparecia no momento da descoberta do campo petrolífero de Tupi e a história nele contada é justamente sobre a mudança do cotidiano de uma cidadezinha a partir do momento em que uma jazida de petróleo aparece. “Proezas de Satanás é um filme sobre o capEtalismo”, disso Joel, em trocadilho agradou ao público que lotava o Teatro Nacional. Isabella (que foi a Capitu na adaptação de Dom Casmurro dirigida por Paulo César Saraceni) lembrou que muita gente a achava “sofisticada demais” para o trabalho. Mas Paulo Gil Soares insistiu e garantiu à atriz que ela agradeceria a Deus ter feito aquele trabalho.

E, de fato, é muito interessante o filme de Paulo Gil Soares, que venceu o Festival de Brasília de 1967. Alegórico, como costumavam ser naquela época de censura e repressão policial, fala de uma pequena cidade imaginária (filmada na mineira Tiradentes), cujo cotidiano é abalado pela descoberta de poços de petróleo. Quem está por trás de tudo é o diabo, que tenta os homens com o dinheiro, o poder e outras vantagens. O trio central é um verdadeiro exército de brancaleone – o cantador cego (Jofre Soares), o homem com um braço só (Cavalcanti) e um anão (Meio Quilo). Às vezes inventivo, outras ingênuo, o filme se ressente de uma dublagem que o torna muito artificial. Como também artificiais são alguns diálogos. E, associar o capitalismo à coisa do demônio era bem da época.

Enfim, Proezas de Satanás é um excelente documento de época, de uma certa estética, de uma certa sensibilidade, mas não se pode dizer que tenha atravessado muito bem o passar dos anos. A título de curiosidade, concorreu com os seguintes filmes: A Margem, de Ozualdo Candeias, O Caso dos Irmãos Naves, de Luis Sérgio Person, Cara a Cara, de Julio Bressane, Bebel, a Garota Propaganda, de Maurice Capovilla, Edu, Coração de Ouro, de Domingos Oliveira, Mineirinho, Vivo ou Morto, de Aurélio Teixeira, O Engano, de Mário Fiorani, e O Matador, de Amaro César.

Quantos deles sobreviveram ao tempo? A Margem, tornou-se um ícone, do cinema dito marginal, é quase um título que inaugura uma vertente. O Caso dos Irmãos Naves impressiona até hoje com a violência de um erro judiciário acontecido em Araguari, Minas Gerais. O roteiro é do crítico Jean-Claude Bernardet. Cara a Cara é a estréia de um Bressane já inventivo, ele que se tornou depois o “senhor Brasília”, pelo número de festivais que venceu (três). Bebel é um filme que se vê bem até hoje, mas também mostra marcas do tempo. O mesmo pode ser dito de Edu, Coração de Ouro, que não tem o mesmo frescor de Todas as Mulheres do Mundo. Mineirinho é um filme de gênero, produzido por Jece Valadão e também não entra em antologias. Já O Engano e O Matador sumiram na poeira dos anos. Pouca gente os conhece e aos diretores.

Tempo implacável. Mais com uns que com outros.

(Caderno 2, 22/11/07)

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