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Procurando Elly

Luiz Zanin Oricchio

07 de janeiro de 2010 | 17h52

Ainda no capítulo “não tinha visto porque estava de férias”, fui dar uma conferida em Procurando Elly, de Asghar Farhadi. Se você pensou no típico filme iraniano, com crianças comoventes, paisagem desolada, metalinguagem, etc, esqueça. O registro aqui é outro, rápido, com um tipo de linguagem nervosa, meio atípica nessa cinematografia, pelo menos no que nos é dado dela conhecer.

Se bem que um dos mais cineastas mais conhecidos, Jafar Panahi (de O Balão Branco e O Círculo), já tivesse feito um filme também destoante do cânone, Ouro Carmim, ambientado na cidade, entre jovens, um thriller urbano bastante bom. Ótimo, aliás, com todo um modo de ser da sociedade se desvelando através da história de um assalto mal sucedido.

Procurando Elly mostra alguns jovens, que vão comemorar a volta de um amigo, Ahmad, da Alemanha, onde ele viveu alguns anos, casou-se e separou-se. Preparam uma ida familiar ao litoral e providenciam uma potencial namorada para ele, a tal Elly do título. Ela própria enroscada num romance que não dá certo, etc.

O filme caminha bem mostrando cenas domésticas na casa meio precária à beira mar, com jogos de adultos e brincadeiras de crianças. Tudo família. Até que uma das crianças quase se afoga, alguém desaparece e tudo muda de rumo, num ritmo vertiginoso.

Em clima tenso, inicia-se uma busca, que logo se transforma em drama moral quando a questão é saber de quem seria a culpa pelo desaparecimento. A maneira como os termos das questões se invertem parece bem interessante. A partir de um dado momento, não se trata tanto de saber como a pessoa desaparecida pode ser encontrada – se é que pode – mas como livrar a própria cara.

Além de bom filme, Procurando Elly é mais subversivo do que parece. Ainda mais se levarmos em conta o suposto conservadorismo da sociedade iraniana, da qual pouco sabemos na verdade, a não ser o que se pode filtrar por trás do preconceito ocidental com que é tratada.

Em todo caso, alguns tabus parecem bem claros e a noção de honra mostra-se suficientemente forte para mover as pessoas – e levá-las a impasses morais.

Um filme que se curte pela boa narrativa, exposição de problemas e linguagem ágil. E, ao mesmo tempo, deixa entrever essa série de questões que parecem prementes em uma cultura tão próxima quanto distante da nossa. Ganhou um Urso de Prata em Berlim. Não por acaso.

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