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Processo de amadurecimento

Luiz Zanin Oricchio

27 de abril de 2010 | 10h47

Todo mundo sabia que o Santo André iria vender caro a derrota. Todos, menos os jogadores do Santos, que tiveram de levar pito no vestiário para voltarem ao segundo tempo com alguma atitude. Não sei para vocês mas, para mim, esse é um dos mais insondáveis mistérios do futebol, muito maior do que o das questões táticas, com o qual se comprazem alguns ilustres colegas comentaristas. Por que um time entra desligado justamente em partidas decisivas, quando deveria estar com a adrenalina à toda? Mistério, que me atormenta desde a Copa de 1998 e aquela final com a França.

Pensando pelo lado da psicologia, talvez isso seja um pouco mais compreensível. A ansiedade e o desejo de definir logo, de tão grandes, acabam por provocar algum tipo de paralisia, mental e física. Que deve ser desfeita por um “tranco” bem dado pelo treinador no intervalo. Como confessou o veterano Léo, o que Dorival Jr. disse no vestiário não pode ser repetido em entrevistas. Não é coisa para gente de família ouvir. Em todo caso, o time acordou. Voltou ligado, fez valer sua qualidade técnica e marcou três gols em poucos minutos. Em seguida dormiu de novo, permitiu que o Santo André voltasse ao jogo e, mesmo com dez em campo, conseguisse diminuir o prejuízo. Se houvesse tempo técnico no futebol, talvez Dorival pudesse sacudir seus pupilos a cada 15 ou 20 minutos para garantir um fluxo de jogo mais contínuo, sem apagões ou curtos-circuitos.

Mesmo assim não se pode garantir. Existe toda uma psicologia esportiva a estudar a influência dos estados emocionais no desempenho e nem por isso as oscilações deixam de existir. Suspeito que, no caso do futebol, esses fatores sejam mais determinantes. Isso explica a maior ocorrência de zebras nesse esporte do que em outros, que apresentam uma frequência muito mais regular de vitórias dos favoritos. O futebol é frágil, mais indócil à análise de especialistas e derruba sem piedade quem se arrisca a previsões muito fechadas. Ainda mais quando envolve times de alto talento, como este do Santos, mas composto por atletas ainda em formação.

Por exemplo: quem quiser ter ideia do grau de maturidade de Neymar, a estrela da companhia, agora no estaleiro por uma contusão no olho, leia a ótima entrevista feita pela repórter Débora Bergamasco para a coluna Direto da Fonte, da Sonia Racy, no Caderno 2 de ontem. Neymar preocupa-se muito com a Ferrari e o Porshe que um dia hão de adornar sua garagem, com os brincos especiais de ouro que mandou fazer, depila as pernas e alisa os cabelos, mas nunca enfrentou problemas de racismo porque, como diz, “não sou preto”. Uma criança, precocemente rica.

Imaturidade à parte, o fato é que o Santos se aproximou mais do título paulista, que só deixa escapar em caso de cochilo total. Ou de exibição extraordinária do Santo André, que é muito bom time e chegou por mérito em segundo lugar na fase de classificação. Talvez já tenha atingido aquela que era sua ambição secreta nestas partidas finais. Oferecer resistência ao time da moda e mostrar que não entrara para a decisão no papel de saco de pancadas. Isso, o time do ABC já realizou e pode pôr no currículo.

Nesta altura do campeonato, o Santo André parece já se despedir de si mesmo, pois seus principais atletas já andam em busca de colocação em times grandes. Bruno César, Nunes, Gil e outros parecem ter novos endereços para a continuação do ano, qualquer que seja o desfecho domingo que vem. Sina dos clubes de menor poder aquisitivo. Perdem seus principais talentos para os grandes que, por sua vez, perdem os seus para os gigantes do exterior.

É a cadeia alimentar do futebol, segundo a lógica perversa do darwinismo econômico. Peixe pequeno é comida de peixe médio, e este vira banquete de tubarão.

(Coluna Boleiros, 27/4/10)