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Procedimento Operacional Padrão

Luiz Zanin Oricchio

15 de dezembro de 2008 | 10h27

Procedimento Operacional Padrão, de Errol Morris, ganhou o Prêmio Especial do Júri em Berlim. Mereceu o troféu em um dos três principais festivais de cinema do mundo, talvez mais pela relevância política do tema do que por seus méritos estéticos. Não é um grande documentário. Tampouco é um filme vulgar. As imagens são fortes. Mais fortes ainda os depoimentos dos militares norte-americanos (homens e mulheres) responsáveis pela agressão aos prisioneiros.

Iremos chamar a esses atos de tortura? É uma questão, mesmo porque boa parte do filme é empregada nessa reflexão semântica. A tortura seria o emprego de meios violentos com a finalidade de arrancar informações ou uma confissão. Não se trata disso. Os soldados não tinham nada o que tirar daqueles prisioneiros, a não ser, talvez, aquilo que restava de sua dignidade ou amor-próprio. Era uma violência gratuita, sem finalidade concreta, a não ser proporcionar um pouco de divertimento em uma situação tediosa, um escape para as pressões da vida militar. Pouca coisa além de um “procedimento operacional padrão”, jargão militar e jurídico que serve de título irônico para o filme, e designa ações “aceitáveis” dentro de determinado contexto.

Morris mescla depoimentos dos militares que responderam a processo depois que as fotos foram divulgadas na web a reencenações das seqüências de violência contra prisioneiros. As vítimas reais não foram entrevistadas. Morris diz que não conseguiu encontrá-las. Tentou localizar esses prisioneiros no Iraque mas não teve êxito. Diz que uma pessoa chegou a se identificar como o “prisioneiro do capuz”, de uma das fotos mais famosas, mas depois se comprovou que o homem mentia. Assim, o filme apresenta a versão de um lado só.

O que não o torna menos aterrador. Porque, por exemplo, através dos seguidos depoimentos de uma das militares, chamada England, nos convencemos de que ela ficou bem arrependida, sim, não porque a consciência lhe pesasse mas por ter sido pega com a boca na botija. Em geral, o discurso é autocomplacente: as pressões da vida militar e, em especial, as de uma prisão de segurança máxima; a possibilidade de estar lidando com potenciais terroristas; o tédio que se casa ao medo, a nostalgia, o estresse e mesmo as pulsões sexuais, etc. Tudo explicaria o inexplicável.

O que aparece no subtexto, mas nem por isso de forma menos clara, é a convicção dos militares norte-americanos, jamais confessada, claro, de que estavam lidando com uma subespécie, por isso não havia mal nenhum em divertir-se com aqueles seres inferiores. Uma brincadeira, nada mais. Um tanto pesada, é verdade, mas afinal guerra é guerra e alguns excessos devem ser relevados, não é?

Dessa forma, o filme insinua que as pessoas que praticaram esses atos, os fotografaram e colocaram as imagens na rede, não passam de sintomas de um mal maior, que estaria alojado a milhares de quilômetros de distância de Abu Ghraib, quer dizer, na Casa Branca ou no Pentágono. E mesmo, de maneira mais difusa, na consciência, se o termo cabe, dos neocons, com sua certeza na superioridade da raça e nos valores que representam. O resto do mundo é o resto. E aquela escória, que ousa resistir a uma missão salvadora, seria menos do que o resto. Simplesmente não conta na ordem divina das coisas.

Difundida essa mentalidade colonial, e devidamente introjetada no inconsciente daqueles jecas agressivos deslocados para o serviço de carcereiros, e pronto: aí está a tragédia anunciada. Abu Ghraib seria então mais o indicativo de algo de muito podre naquele distante reino da Dinamarca do que o desvio de alguns seres de caráter distorcido. Há certa grandeza nesse tipo de raciocínio, desde que ele não sirva para desculpar crimes de iniciativa individual.

(Cultura, 14/12/08)

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