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Pro Dia Nascer Feliz: a escola como espelho do País

Luiz Zanin Oricchio

03 de fevereiro de 2007 | 10h00

Digamos que Pro Dia Nascer Feliz era o filme certo que surgia em hora oportuna. Sim, isso porque este segundo documentário de João Jardim (o primeiro foi Janela da Alma, parceria com Walter Carvalho) fala daquela que é uma das questões mais prementes do Brasil, ou de qualquer país em desenvolvimento, este eufemismo contemporâneo que designa os países pobres – a educação.

De maneira mais específica – Jardim tenta mapear como as profundas divisões de classes sociais no Brasil se refletem na maneira como as pessoas se educam. Assim, faz um passeio, digamos, pedagógico pelo País, entrevistando alunos em salas de aula tão díspares como aquelas que se encontram em Manari, no sertão de Pernambuco, Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o bairro chique de Alto de Pinheiros, em São Paulo, e Itaquaquecetuba, no interior do Estado.

O painel é em parte previsível. Não espantam os problemas como violência, desmotivação de professores mal remunerados, relacionamentos conflitantes, o descaso do poder público em relação às escolas estaduais, etc. Toda a situação caótica do ensino brasileiro, que conseguiu se expandir mas não manteve a qualidade, aparece de maneira nítida. Por outro lado, os alunos, aqueles que estudam no bairro de classe média alta e não sabem o que são as carências materiais, tentam entender o que significa ser privilegiado em uma situação desigual como a brasileira.

Jardim ouve alunos, professores, educadores. Mostra casos exemplares como o da menina que adora literatura mesmo vivendo em condições muito modestas, ou do garoto, malandrão, que flerta com o tráfico mas talvez encontre alguma saída através da música. Sempre existe uma possibilidade, parece dizer o filme.

E nem poderia ser de outra maneira, embora não seja uma visão otimista sobre os fatos. Aliás, muito pelo contrário. Mas, se mostra uma situação de virtual falência, também encontra algumas possibilidades de solução. E estas vêm, sempre, de iniciativas individuais. Seja o valor de um aluno isolado, que apesar do péssimo curso que freqüenta ainda consegue avançar; seja pela professora dedicada, apesar do salário incapaz de suprir as necessidades básicas. Seja por abnegados que, fora do horário de serviço, ainda se dedicam a trabalhos sociais com os alunos. Enfim, parece não haver nenhuma esperança de que o Estado de fato cumpra com decência seu dever com a educação básica, como o fazia não muitos anos atrás. Essa esperança, se ela existe, é depositada na boa-fé dos indivíduos.

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