Presença argentina nas telas
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Presença argentina nas telas

Mais dois longas-metragens dos hermanos entram no circuito, 'Minha Obra-prima' e 'Uma Viagem Inesperada'. Há também o polêmico Filhas do Fogo, que continua em cartaz

Luiz Zanin Oricchio

28 de março de 2019 | 09h13

Minha Obra-prima

 

Mais dois filmes argentinos entram em cartaz.

Minha obra-prima, de Gastón Duprat, é narrado por um sofisticado negociante de obras de arte, Arturo (Guillermo Francella) que, logo de cara, confessa ao espectador ser um assassino.

Ao longo da história veremos a complexidade do seu relacionamento com o pintor Renzo (Luis Brandoni), que teve seus momentos de glória mas anda meio esquecido pelo mercado artístico. O filme é uma espécie de thriller artístico, com bom roteiro e boas interpretações.

Põe em xeque o mercado de artes, que trabalha com valores impalpáveis e muitas vezes se vê à mercê de fraudes e falsificações como forma de turbinar o valor das obras.

Uma tônica nesse cinema que chega até nós é o roteiro sólido, pensado e urdido por mãos profissionais. A outra, a homogeneidade do elenco, com destaque de interpretações como a de Francella, um grande ator sem dúvida.

Duprat se interessa por esse tipo de temática. seu filme anterior, O Cidadão Ilustre, fala de um escritor que, depois de ter recebido o Nobel de Literatura, aceita convite para visitar sua cidadezinha natal, onde não vai há mais de 40 anos. Tornado uma celebridade, o escritor vê-se devorado pela fama.

Da literatura à pintura, Duprat prossegue, com Minha Obra-prima, sua pesquisa sobre as distorções da arte em sua relação com o mercado. Ou como a obra se aliena ao se sujeitar a injunções de compra e venda, relações de lucro com as questões da celebridade e da nem sempre honesta raridade.

O tom, no entanto, não é de crítica chata ou mau-humorada. A ironia tempera a análise e faz do riso um aliado do diretor. Em benefício do público.

Uma Viagem Inesperada

Uma Viagem Inesperada

Uma viagem inesperada, de Juan José Jusid (Boulevard Filmes), é uma co-produção com o Brasil. O engenheiro Pablo (Pablo Rago) mora no Rio com uma nova mulher, Lucy (Débora Nascimento). Sua ex-mulher telefona da Argentina dizendo estar tendo problemas com o filho que tiveram e pede que venha ajudá-la. A história, portanto, centra-se no difícil relacionamento entre pai e filho. E resolve-se num road movie que sela a tentativa de aproximação entre os dois.

Menos criativo, tanto do ponto de vista do roteiro como da realização cinematográfica, Uma Viagem Inesperada salva-se pela simpatia dos personagens. Claro, a tentativa de reaproximação de pai e filho também se desdobra na aproximação diplomática dos dois países vizinhos. Co-produção oblige.  

Filhas do Fogo

Enquanto isso, continua em cartaz o polêmico Filhas do Fogo, de Albertina Carri. O filme, já definido como um pornô lésbico “de arte”, venceu o Bafici, o festival de cinema de Buenos Aires. É bastante provocativo ao colocar em cena o desejo feminino de maneira explícita e sem atenuantes.

Tem a estrutura formal de um road movie, com três mulheres que põem o pé na estrada a bordo de um carro roubado. Uma delas é uma cineasta que deseja fazer um filme pornográfico. Ao mesmo tempo que refletem sobre os limites entre pornografia e erotismo as personagens partem para a prática. Ao longo do caminho, outras mulheres embarcam na caravana e esta tem sua culminação na propriedade rural da mãe de uma delas, numa festa regada a chá de cogumelos alucinógenos.

As imagens de sexo explícito podem chocar. Na sessão a que assisti, alguns jovens marmanjos se levantaram e foram embora. Como se as cenas sexuais entre mulheres (a duas ou em grupo) fossem uma agressão ao macho. Prova de que o filme, se esta era uma de suas intenções, parece acertar o alvo. Há uma nova sociedade surgindo (em que pese a onda conservadora que varre o mundo) e, nesta, as mulheres adotam novo papel. Não mais se subordinam ao mundo patriarcal, assumem seu desejo e o praticam como bem querem. De forma hetero, homo, ou como entenderem. Ninguém tem nada a ver com isso.

Um dado curioso é que, ataque à sociedade falocêntrica, Filhas do Fogo mantém o falo em evidência. Em sua versão artificial, claro, pois homens não entram na história – a não ser pela porta dos fundos e de maneira caricata.