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Cheiro do Ralo vence a Mostra

Luiz Zanin Oricchio

02 Novembro 2006 | 22h46

Saíram os premiados da mostra. Dêem uma olhada na lista abaixo: ganhou O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia. É a segunda vez consecutiva que um filme brasileiro vence a Mostra (o ano passado foi Cinema, Aspirinas e Urubus). Há uma coincidência. O Cheiro do Ralo ganhou também o Prêmio da Crítica, que também premiou como filme estrangeiro o comovente Hamaca Paraguaya, de Paz Encina.

Com Prêmio Especial do Júri, que equivale a um segundo lugar, o júri oficial elegeu mexicano O Violino, outro belo filme e, a exemplo de O Cheiro do Ralo, também uma proposta original e ousada.

Seria preciso fazer uma crítica completa desses dois filmes e prometo escrevê-las, em breve,e colocar aqui no blog.

Por ora, vamos dizer o seguinte: O Cheiro do Ralo aposta num universo dark, nas sombras da cidade onde pontifica o usurário interpretado por Selton Mello. A sacada de Dhalia é ter expresso esse universo em um visual sufocante, às vezes mesmo claustrofóbico. O personagem de Selton promove as maiores baixezas, mas se queixa mesmo de um ralo de seu escritório, que cheira mal. Nós sabemos que quem cheira mal é ele. E talvez o mundo que o cerca. É a maneira de Mutarelli e Dhalia expressarem esse universo circundante.

Em O Violino do mexicano Francisco Vargas Quevedo, temos uma história de camponeses e guerrilhas, contada em tom minimalista e em preto-e-branco. O destaque fica para o personagem Dom Plutarco (Don Angel Tavira), o velho tocador de violino, com seu ar pacato e toda a experiência da vida no rosto. Ele sabe que uma caixa de violino pode transportar seu instrumento, mas também outros tipos de objetos. Enquanto traça, em silêncio, seu plano de apoio aos rebeldes, Dom Plutarco encanta com sua música um capitão do exército, que está lá justamente para desbaratar a oposição ao governo.
Há muitas entradas de entendimento para este filme, inclusive aquela que mostra pessoas pobres oprimindo outros pobres porque assim é a “ordem natural das coisas”. Mas há muito mais, porque este O Violino toca em muitas notas, e todas afinadas. Em preto-e-branco, com interpretações contidas e sinceras, este é um filme emocionante, sem nenhuma concessão.

Abaixo, a premiação completa

Prêmio do Júri – Melhor Filme:

O CHEIRO DO RALO, de Heitor Dhalia (Brasil)

Prêmio Especial do Júri:

O VIOLINO, de Francisco Vargas (México)

com menção especial para o ator DON ANGEL TAVIRA

Prêmio do Júri – Melhor Ator:

ADEL IMAM, por O EDIFÍCIO YACOUBIAN (Egito)

Prêmio do Júri – Melhor Atriz:

MARIA LUNDQVIST, por MINHA VIDA SEM MINHAS MÃES (Finlândia)

Prêmio do Júri – Menção Honrosa:

O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS, de Cao Hamburguer (Brasil)

“Por sua realização visual e pela capacidade não apenas de criar uma atmosfera de época, mas também de traduzir o sentimento coletivo daquele período”

Prêmio Petrobras Cultural de Difusão – Melhor Longa Brasileiro de Ficção

(voto do público) – R$ 400 mil para distribuição:

ANTONIA, de Tata Amaral (R$ 200 mil)

O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS, de Cao Hamburguer

(R$ 200 mil)

Prêmio Petrobras Cultural de Difusão – Melhor Documentário Brasileiro

(voto do público) – R$ 200 mil para distribuição:

FABRICANDO TOM ZÉ, de Décio Matos Jr.

Prêmio do Público – Melhor Curta Brasileiro:

PRIMEIRA VEZ, de Fabrício Bittar

Prêmio do Público – Melhor Média Brasileiro:

DEUS E O DIABO EM CIMA DA MURALHA, de Tocha Alves e Daniel Lieff

Prêmio do Público – Melhor Longa Estrangeiro de Ficção:

ROSSO COME IL CIELO, de Cristiano Bortone (Itália)

Prêmio do Público – Melhor Documentário Estrangeiro:

UMA VERDADE INCONVENIENTE, de Davis Guggenheim (EUA)

Prêmio do Público – Melhor Curta Estrangeiro:

EU QUERO SER PILOTO, de Diego Quemada-Diez (Quênia/México/Espanha)

Prêmio do Público – Melhor Média Estrangeiro:

JANA SANSKRITI – UM TEATRO EM CAMPANHA, de Jeanne Dosse (França)

Prêmio da Crítica – Categoria Internacional:

HAMACA PARAGUAYA, de Paz Encina (Paraguai/França/Argentina/Holanda)

“Pela ousadia na maneira de abordar a passagem do tempo, as relações humanas e as reflexões sobre a vida e a morte de maneira única e simples”

Prêmio da Crítica – Categoria Nacional:

O CHEIRO DO RALO, de Heitor Dhalia

“Pela junção de um fino humor negro com reflexões psicológicas e sociais, entre outras”

Prêmio da Juventude

(votos de estudantes secundaristas dentro da seção Festival da Juventude):

MINHA VIDA SEM MINHAS MÃES, de Klaus Harö (Finlândia)

Prêmio Humanidade:

VITTORIO DE SETA, cineasta italiano de BANDITI A ORGOSOLO (1961) e CARTAS DO SAARA (2006), convidado de honra da 30ª Mostra