Preciosa
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Preciosa

Luiz Zanin Oricchio

12 Fevereiro 2010 | 19h18

preciosa

O que existe em Preciosa é algo raro em um cinema contaminado pela necessidade constante do sucesso – o uso das cenas nada espetacularizadas em sua dramaturgia. É bom que se esclareça: mesmo a violência, mesmo a pobreza podem ser exprimidas sob a forma do espetáculo, do “embelezamento”. E, como tal, elas têm seu lugar no cinema comercial, sem comprometer o desempenho na bilheteria.

Já em Preciosa, não existe essa preocupação. Num filme em que até Mariah Carey aparece sem um pingo de glamour, tudo o que é feio e desagradável deve aparecer dessa maneira. Até mesmo um ato obsceno de abuso em uma adolescente. Tudo para melhor ressaltar o que for belo e valorizá-lo em sua intensidade – a maneira como a “preciosa” do título do filme conseguirá contornar toda a tragédia em que se transformou sua vida sem entregar os pontos jamais. Ponto para a atuação da estreante Gabourey Sidibe e da apresentadora Mo”Nique, que faz a sua mãe. Ambas brilham de espontaneidade e entrega aos seus papéis.

Por outro lado, Preciosa não é uma vulgar história de perdedores e vencedores, uma constante no cinema norte-americano, que é obcecado por essa temática. Se a garota, tão desfavorecida por tantos fatores é uma lutadora sem tréguas, sua perseverança não a transforma automaticamente em um daqueles modelos a ser seguidos, etc. Quer dizer, em mais um clichê inócuo. Não porque o que vem junto de Preciosa é também um diagnóstico bastante implacável de um modo de vida e de uma cultura tantas vezes vendidos como exemplares. Sem qualquer discurso sociológico a atravancar a ação, o filme convida o espectador a refletir sobre quanto existe de determinação individual no sofrimento de uma vida e como ele poderia ser amenizado fossem outras as circunstâncias.

A existência sofrida de Preciosa não é predestinada por qualquer força sobrenatural, ou pela mão invisível (e cruel) de um destino. Ela se tece entre destinos individuais e entre condições sociais. E depende tanto da patologia de alguns agentes quanto da vocação caridosa de uma professora ou da tolerância de uma assistente social. Preciosa é, sim, um filme sobre a esperança. Mas sem qualquer pieguice, pois sabe quanto custa alimentar uma esperança sob condições tão adversas.

(Caderno 2, 12/2/10)