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Pré-estreia de “Lula” incendeia Brasília

Luiz Zanin Oricchio

17 de novembro de 2009 | 09h11

Com a pré-estreia do aguardado e já polêmico Lula, o Filho do Brasil, de Fábio Barreto, o primeiro dia do Festival de Brasília será de arromba. A cinebiografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, inspirada no livro de Denise Paraná, será exibida hoje à noite no Teatro Nacional de Brasília com toda a pompa e alguma circunstância que uma obra desse tipo suscita. Todos os holofotes e atenções estarão sobre ele, pois se trata de um desses raros filmes sobre os quais um grande número de pessoas já tem opinião formada – seja contra ou a favor – mesmo antes de tê-lo visto.

Lula, o filme, é um desses casos em que a avaliação estética terá de se medir com sua repercussão política, e vice-versa. Ninguém poderá escapar a essa dupla implicação, fruto do vínculo da obra com o personagem, ainda mais porque o lançamento comercial está marcado para o primeiro dia do ano eleitoral de 2010.

O filme já foi exibido em particular para alguns formadores de opinião, mas esta será a primeira sessão pública para valer, em presença de convidados e jornalistas de todo o País. E também, supõe-se, de políticos, que verão como o atual presidente, que goza de um índice inédito de popularidade, será retratado na tela. Enfim, no mundo do cinema e da política não se falará de outra coisa, embora o produtor Luiz Carlos Barreto procure evitar o tom partidário ou o caráter chapa-branca da obra (Leia entrevista abaixo).

Após essa abertura em tom maior, o desafio, para o festival, será manter o pique e o interesse. Como de hábito, Brasília, o mais antigo evento do gênero no País, traz um cardápio enxuto. São seis longas-metragens em sua mostra principal, na bitola de 35 mm. Todos inéditos, ponto de honra para o festival, que, mesmo diante de dificuldades, não dá mostras de transigir nesse ponto. Quem quiser concorrer em Brasília, pelo menos até agora, tem de guardar seu filme na gaveta e não ceder à sedução de outros concorrentes poderosos, como as mostras de São Paulo e do Rio, ou o Festival de Paulínia, que oferece altos prêmios em dinheiro.

Assim, preservaram-se para Brasília os longas A Falta Que me Faz, de Marília Rocha (MG), É Proibido Fumar, de Anna Muylaert (SP), Filhos de João – Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas (BA), O Homem Mau Dorme Bem, de Geraldo Moraes (DF), e Quebradeiras, de Evaldo Mocarzel (SP). Com exceção dos filmes de Anna Muylaert e Geraldo Moraes, duas ficções, os outros concorrentes são documentários, ou parecem estabelecer uma interface entre a ficção, o ensaio poético e o documental. Esse veio, aliás, tem se mostrado fértil para o cinema brasileiro, como a obra recente de Eduardo Coutinho indica.

Desse modo, pelo segundo ano consecutivo, Brasília tende ao documental, o que não é bom nem mau em princípio, mas apenas sintoma de que, na estrutura atual do calendário brasileiro de festivais, não existem filmes de ficção para abastecer a todos. Nem mesmo aquele que, em tese, é considerado o mais tradicional, sério e de peso cultural desse calendário. Até há poucos anos, os diretores e produtores se matavam para participar de Brasília. Hoje não é mais assim e outras vias de exibição – e competição – foram abertas.

O desafio de Brasília para os próximos anos será manter a qualidade, o quesito de ineditismo e a data, quase no encerramento do ano. Há quem diga que para para fazer frente a todas essas exigências, Brasília não precisa de um diretor e sim de um malabarista.


ENTREVISTA

Luiz Carlos Barreto, de 81 anos, é o mais conhecido produtor do cinema nacional. Veterano fotógrafo do Cinema Novo (fez a direção de fotografia de Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos), Barretão, como é chamado, sabe o caminho das pedras das leis de incentivo. Não utilizou nenhuma delas na produção de Lula, o Filho do Brasil, como diz na entrevista ao Estado.

Por que você resolveu produzir um filme sobre Lula?

É um projeto de mais de dez anos. Comecei a notar, em viagens, que, quando eu dizia que era brasileiro, perguntavam sobre Pelé, Ronaldo, mas também sobre Lula. E eu percebi que não sabia nada. Li o livro da Denise Paraná e achei que ali tinha um filme. Achei que era como uma fábula do tipo “era uma vez um garoto muito pobre que se torna rei”. Pura dramaturgia.

Qual o foco do filme?

Mostra a história dele, da infância até a morte da mãe, quando era sindicalista. Notei que conhecíamos metade do Lula, a do sindicalista que chegou à Presidência. O filme conta a trajetória anterior. De onde veio esse cara? Como chegou aí?

Lula é uma figura muito polarizada. Apesar da enorme popularidade, há quem o ame e quem o odeie, sem etapas intermediárias. Esses sentimentos não vão ficar mais exacerbados, em especial com o filme lançado em ano eleitoral?

Lula não é candidato a nada. E o filme não transfere nada para a Dilma. É uma pressuposição indevida. O filme não é a favor da Dilma. Nem do PT. Depois que as pessoas assistirem, irão ver que a personagem principal é a mãe de Lula, dona Lindu (interpretada por Glória Pires), uma mulher fabulosa, uma lutadora. Acho até que o Lula, na verdade, é um produto da dona Lindu. Um fruto físico, anímico da dona Lindu. Por isso, acho difícil as pessoas não se comoverem, sendo pró-Lula ou anti-Lula, com a história dessa mãe. Ela é a raiz desse filme.

Outra acusação é de que o filme seria chapa-branca.

O filme não tem manipulação nenhuma. É honesto, como se a gente estivesse seguindo a vida dessa pessoa. É uma história de superação, de brasileiro que não aceitou um destino pré-escrito.

Não entrou dinheiro público?

No orçamento de R$ 12 milhões e mais R$ 4 milhões de comercialização não entrou um centavo de lei de incentivo, nem federal, nem estadual nem municipal.

Você é admirador do Lula? Votou nele?

Admiro o Lula em vários aspectos, até em seu ar não doutoral, que irrita muita gente. O Lula é o povo brasileiro. Somos nós. Incomoda a quem está preso a modelos estrangeiros. Já votei nele, como já votei em Fernando Henrique e no Serra.

(Caderno 2, 17/11/09)

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