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Povera Italia

Luiz Zanin Oricchio

28 de setembro de 2009 | 09h32

Dando uma zapeada, passei ontem pela RAI – que, em geral, só nos oferece risíveis programas de auditório. Dei sorte. Assisti a uma bela, longa e terrível entrevista com Roberto Saviano, autor de Gomorra, o livro que deu no filme que agora tenta representar a Itália no Oscar. Saviano, por seu livro denúncia, está ameaçado pela Camorra napolitana e vive debaixo de proteção policial constante. Imaginei que, dadas essas circunstâncias, Saviano seria uma unanimidade em seu país e quem não gostava dele pertenceria, de fato ou por afinidade, a uma dessas organizações criminosas. Ledo e ivo engano, como se diz.

O programa mostrou como o livro de Saviano pôde, contra toda sua intenção, servir de alimento ao preconceito do norte contra o sul. Vários depoentes disseram que “os meridionais são assim”. São eles que cometem os crimes, que infestam as cidades, sobrecarregam os hospitais, etc. Ora, pensei que esse sentimento racista e separatista estivesse amenizado na Itália, mas não. Subsiste e para além dos fanáticos da Lega Nord.

Mas o pior estava por vir. O programa (muito bom porque não busca a unanimidade e vai às contradições) foi à terra de Saviano ouvir o que alunos do curso secundário tinham a dizer sobre o autor. Para minha absoluta surpresa, a grande maioria dos jovens era contrária ao escritor. Diziam que ele havia “manchado a reputação do local” e que melhor seria se tivesse ficado calado. Perguntaram a um rapaz se era mentira o que havia em Gomorra. Ele respondeu que não, mas que eram “fatos da vida”, dando a entender que nada havia a ser feito e era melhor calar. Não disseram diretamente, mas insinuaram que Saviano havia mexido com fogo e se por isso viesse a tomar um tiro e ser assassinado seria no fundo bem merecido. Que mundo, hein?

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