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Por que ver Pasolini ainda hoje?

Luiz Zanin Oricchio

23 de setembro de 2007 | 10h31

Amigos, escrevi esse texto como complemento ao artigo de capa do Cultura de hoje, que tem como tema o ensaio-biografia de Pier Paolo Pasolinin escrito por Luiz Nazário. Bom domingo a todos.

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Um jovem cinéfilo tem todo o direito de perguntar por que deve ver os filmes de um cineasta italiano morto em 1975, portanto, 32 anos atrás.

Primeiro, o contexto: nascido em 1922, Pasolini atravessa ainda muito jovem o grande momento do cinema italiano no século passado, o neo-realismo, criado no final da 2ª Guerra Mundial. Era um movimento estético, mas também político, com os cineastas comprometidos com a reconstrução de uma nova Itália, livre do fascismo que a havia levado ao desastre na era Mussolini.

Depois, temos a bagagem intelectual de Pasolini. Formado em letras, entra no cinema pela colaboração em vários roteiros, como A Mulher do Rio, de Mario Soldati, Noites de Cabíria, de Federico Fellini, A Longa Noite de Loucuras, Um Dia de Enlouquecer e O Belo Antonio, estes três dirigidos por Mauro Bolognini, cineasta hoje um tanto esquecido e que seria preciso recuperar.

O fato é que Pasolini jamais foi um cineasta preocupado apenas com sua técnica ou em ‘contar boas histórias’ como hoje, candidamente, se diz. Escrevia, desenhava, publicava ensaios, era poeta, pensava e agia politicamente; o cinema era um meio, entre outros, de expressar suas idéias sobre o mundo.

Assim, quando começa a dirigir, seus primeiros filmes, de marcante fundo social, mostram com clareza simpatias e opções. Accatone (1961) e Mamma Roma (1962) são sobre o mundo dos desvalidos, o lúmpen, sobre o ser humano periférico, com valores próprios, que luta para sobreviver em uma sociedade que pouco se importa com ele. Há nesses filmes traços do neo-realismo e, ao mesmo tempo, uma curiosa mistura de marxismo e cristianismo, blend contraditório do qual apenas ele tinha a receita. É o que também se pode ver em O Evangelho Segundo Mateus (1964), leitura progressista das Escrituras.

A reflexão de Pasolini o leva à esquerda, mas não a uma adesão que seria unilateral e acrítica a pretexto de combater o fascismo, segundo ele sempre endêmico no país. Pasolini sabia que a própria esquerda era um problema em si, como se vê em Gaviões e Passarinhos, com o cômico Totò e Ninetto Davoli fazendo a dupla popular que devora o corvo trotskista – este sempre querendo adivinhar, em vão, a direção em que o povo caminha. Totò voltaria a trabalhar com Pasolini no episódio A Terra Vista da Lua, talvez as imagens mais poéticas captadas pelo cineasta em sua carreira. A meditação sobre seu tempo prossegue com o intrigante Teorema (1969), a dissolução de uma família burguesa com a chegada de um ‘anjo’ sexuado, Terence Stamp.

Há o Pasolini da fase mítica com Édipo Rei (1967) e Medéia (1971), procurando recuperar, através da tragédia grega, uma certa ligação com a antiga narrativa humana que, ele sentia, ia se perdendo com a chegada de uma segunda modernidade na virada dos anos 60 e 70. O mundo dos objetos, da superprodução industrial na já de novo afluente sociedade italiana, ia tornando obsoletos modos de sociabilidade tradicionais, propiciados por uma cultura operária então em dissolução. Para que não dissessem que era saudosista, porque não o era, Pasolini fustigava a ‘Italietta’, a Italiazinha tão folclórica, romântica e antiquada, essa sim uma obsessão nostálgica e reacionária.

Não deixa de ser curioso que na parte final de sua carreira Pasolini tenha se preocupado em celebrar a alegria e a sexualidade, com a chamada trilogia da vida: Decamerão (1972), Os Contos de Canterbury (1973) e As Mil e Uma Noites (1974). Mas quando se apercebeu de que até mesmo essa apologia do desejo havia sido assimilada e transformada em mercadoria, virou o jogo e partiu para a adaptação trágica de Os 120 Dias de Sodoma, de Sade. Salò (1975) ambienta Sade na Itália fascista, é um filme árduo, difícil de ver, incontornável e que se torna testamento após seu assassinato por um garoto de programa. Prazer e desprazer, a dor e o orgasmo, são faces da mesma moeda. Amor e morte, na dilaceração da política e na anulação fascista do Outro.

Poucos cineastas se envolveram tanto com seu tempo como Pasolini, sendo que o único termo de comparação brasileiro seria Glauber Rocha, ambos capazes de oferecer o próprio corpo em sacrifício para o entendimento de uma época em transe.

Pasolini foi uma espécie de anjo da anunciação deste nosso mundo novo, que estava justamente nascendo quando ele se foi. Seu último filme é a porta de entrada para o pesadelo contemporâneo. É ver para crer. E ir se habituando.

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