Por que o dia é Hoje
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Por que o dia é Hoje

Luiz Zanin Oricchio

19 de abril de 2013 | 18h47

 

Desejo de lembrar. De reviver o que a gente quer esquecer. Desse modo a diretora Tata Amaral define Hoje, seu novo filme, mais um entre inúmeros projetos que esmiúçam as circunstâncias e consequências do golpe militar de 1964 (Leia box abaixo).

Hoje venceu o principal festival do cinema brasileiro, o Festival de Brasília, em 2011. Apenas agora entra em cartaz. Mas não poderia ser em tempo mais oportuno. Primeiro porque há em ação no País uma Comissão da Verdade incumbida, justamente, de trazer à luz os crimes da ditadura. E, segundo, porque, desde 1º de abril entramos em contagem regressiva para o cinquentenário do golpe de 1964, período em que provavelmente haverá uma meditação intensificada sobre sua repercussão na vida dos brasileiros sob a forma de debates, livros e filmes. A hora se mostra, portanto, propícia para que Hoje funcione como uma espécie de ponto de partida para essa reflexão sobre o golpe.

A história mostrada é a de Vera (Denise Fraga), ex-militante política, que emprega o dinheiro da indenização recebido pelo “desaparecimento” do marido durante a ditadura na compra de um apartamento. O filme flagra o momento da mudança para a nova residência. O filme é baseado no romance Prova Contrária, de Fernando Bonassi, autor que forneceu material para o primeiro filme de Tata, Um Céu de Estrelas, em 1996.

Tata conta que leu o livro de Bonassi há muitos anos e ficou tocada por uma passagem. Havia um suicídio no enredo e a cineasta tivera caso semelhante em sua família. Mas além do dado pessoal, a trama se prestava muito bem à reflexão política que se faz necessária neste momento do País. Ou seja, a necessidade de trazer à luz do dia exatamente aquilo que dói, que parece inassimilável, porque é a única maneira de superar o trauma, digamos assim. “É uma verdade psicanalítica. Você só pode transformar se iluminar; se colocar para baixo do tapete, aquilo te assombra pelo resto da vida”, diz a diretora.

O processo não é exatamente estranho à diretora. Em Rei do Carimã, ela exumou um fato do passado da história do próprio pai, como única forma de superá-lo. “Ao mesmo tempo, fiz Trago Comigo, no qual um diretor de teatro faz uma a peça para se lembrar”, diz. Tata lembra que para este trabalho entrevistou antigos militantes políticos. Portanto, o caminho estava aberto para trabalhar o tema da memória como condição de saúde para os indivíduos e também para os países vítimas de regimes opressores. Entre estes, o Brasil é um caso muito particular de amnésia seletiva: “Nós somos conciliadores porque foi feito um acordo espúrio. Não revelar nomes implica um custo social muito grande. Porque se tortura até hoje. Em Trago Comigo, eu tive de apagar nomes, porque os torturados sabem, os que foram presos sabem e eu tive de omitir nomes. Cortei a voz quando eles falam os nomes porque eu podia ser processada”, diz a diretora.

O caminho da ficção é menos árduo. Nela, as coisas podem ser ditas, nomeadas e os fantasmas, exorcizados. Para esse trabalho tão adequado ao tempo e lugar, Tata escalou uma Denise Fraga iluminada, que vai muito além do estereótipo de excelente comediante. E um César Troncoso intimista, que conhece o valor do dito e do não-dito para que a verdade venha à tona. “Como uruguaio estava infelizmente familiarizado com a realidade da ditadura”, diz. “Na verdade, a Operação Condor funcionava melhor do que o Mercosul”, acrescenta, com ironia. Para os muito jovens: Operação Condor era uma espécie de “convênio” das ditaduras sul-americanas para perseguir presos políticos através das fronteiras. Muito eficaz, de fato.

Crítica

Hoje é a história de uma mudança. Com todas as repercussões simbólicas que a palavra “mudança” contém. Alteração de endereço, sim, mas hora também de reiniciar nova vida, de se livrar de trastes acumulados na casa antiga, momento de olhar para frente. Hora, portanto, de vencer o passado e instalar-se no “hoje” de que fala o título. No presente.

Daí a opção de adaptar o romance de Fernando Bonassi para locação única, um antigo apartamento na Avenida São Luis. Tata deve a Bonassi o texto para seu primeiro filme, aquele que a fez despontar como um dos grandes talentos na época dura da Retomada do cinema brasileiro: Um Céu de Estrelas, filme de 1996. Também em seu filme seguinte, Através da Janela, os personagens pouco saíam à rua. É opção de concentração dramatúrgica, que encontra ressonância nas ótimas atuações de Denise Fraga e César Trancoso, em especial.

Mas há também a inspirada manipulação dos ambientes e da luz, de modo que uma história, passada em locação praticamente única, não se torne repetitiva ou monótona. A diretora conta que o crítico Jean-Claude Bernardet, respeitado pensador do cinema do País, e um dos autores do roteiro, falava sempre em “realidades movediças”. O que seriam? Simples. Sempre que a câmera voltava a um ambiente conhecido, ele apresentava alguma alteração, nem que fosse um móvel diferente em relação à cena anterior. A ideia é que a subjetividade de Vera está numa relação dinâmica permanente. Precisa relacionar-se com o passado, para “fazer seu trabalho de luto” (expressão de Freud), instalar-se no presente e vislumbrar o futuro. Daí a afirmação de que o apartamento é um personagem e não apenas uma locação.

Há também o trabalho fotográfico. Em muitas cenas, as paredes são usadas como telas sobre as quais se projetam imagens. São informações adicionais ao espectador, e juntam, ao realismo de algumas passagens, uma dimensão adicional – a meditação sobre os fatos, as lembranças, as fantasias da personagem. Nesse sentido, o filme quebra várias vezes o pacto realista com o espectador. Propõe algo que sabemos muito bem, mas o cinema às vezes nos nega: na vida, estamos sujeitos às coisas e às exigências do dia a dia, mas somos também afetados por aquilo que vivemos e sofremos. Memória, em outras palavras. Sem a qual podemos nos perder, mas da qual também podemos padecer, quando ela se torna excessiva e onipresente. Borges escreveu um conto chamado Funes, o Memorioso sobre o homem dotado de memória tão aguçada que não podia pensar, porque era incapaz de esquecer o que quer que fosse.

O passado pode ser um leme; ou pode ser um fardo. Cabe a medida justa para que não vivamos do passado ou nos contentemos com um eterno presente.

Filmes sobre o golpe de 1964

Ninguém pode se queixar de que o cinema brasileiro não fornece subsídios para reflexão sobre o golpe de 1964 e suas consequências históricas. Para os interessados, há desde clássicos como Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, até novidades recém-chegadas como O Dia que Durou 21 Anos, de Camilo e Flávio Tavares.

Cabra Marcado para Morrer, filmado em parte durante 1964, foi interrompido pelo golpe, sendo retomado apenas 20 anos depois, já na véspera da redemocratização. Outro que entrou para o repertório básico sobre 1964 é Jango, de Silvio Tendler, enorme sucesso de público sobre o presidente deposto pelos militares.

Personagens da luta armada contra a ditadura, como Lamarca e Marighella, foram retratados por Sérgio Rezende e Isa Grispum Ferraz. Há pouco, no festival de documentários É Tudo Verdade, foi exibido o excelente Em Busca de Iara, de Flávio Frederico e Mariana Pamplona, desmontando a tese do suicídio da guerrilheira Iara Iavelberg, mulher de Carlos Lamarca, morta num cerco policial em Salvador.

Personagem importante da história da ditadura foi o empresário dinamarquês Henning Boilensen, que ajudava a repressão e foi assassinado pela guerrilha. Foi retratado em Cidadão Boilensen, por Chaim Litewiski, que tem a coragem de mostrar a cooperação de grupos empresariais com os órgãos de repressão e tortura.

Baseando-se no livro de Fernando Gabeira, O que É isso, Companheiro?, Bruno Barreto relembra o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick por grupos armados. Inteiramente ficcional e valendo-se de ângulo original, Cara ou Coroa, de Ugo Giorgetti, homenageia a pequena militância, aquela que corria riscos escondendo em casa um perseguido, ou levando mensagens entre grupos.

 

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