Por que não dá para ser neutro
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Por que não dá para ser neutro

Não vamos nos iludir, o que está em jogo nessa eleição é o processo civilizatório, do qual participamos com o atraso habitual e a timidez que nos é própria. Até esse pouco está ameaçado

Luiz Zanin Oricchio

16 Outubro 2018 | 20h29

 

Não dá para ser neutro porque o que agora se decide é mais que uma eleição: é o futuro do Brasil.

Democracia é a possibilidade de alternância entre partidos (que, em tese, dão corpo a ideias diferentes de como governar uma sociedade). Como ninguém é dono da verdade, é normal e desejável que se alternem no poder.

Neste ponto, devo abrir parênteses e imaginar a raiva que o PSDB deve sentir de si mesmo. Se tivesse deixado a História seguir seu curso, hoje provavelmente seria o favorito para suceder o PT no governo federal. Tentou um atalho para voltar ao poder e está em farrapos.

Mas nem é este o ponto.

O ponto é que, chegando ao que chegamos, não é possível, para qualquer pessoa de bom senso, equiparar as duas candidaturas existentes.

Você pode não gostar deste ou daquele, mas não há como comparar um professor universitário, que foi Ministro da Educação e prefeito de São Paulo, com um militar reformado, tosco de ideias e adepto da violência.

Quem justifica seu voto diz que é contra o PT. Ok, mas então por que não votou nas outras alternativas disponíveis no primeiro turno? Teriam conduzido Ciro, Alckmin ou Marina, ou até Henrique Meirelles, ao segundo turno para disputar com o odiado PT. Não. Uma grande maioria definiu-se pelo capitão logo de cara, o que mostra certa afinidade de ideias, pelo menos.

Já ouvi também a justificativa de que estariam votando no candidato do PSL porque ele não representa ameaça à democracia. Assim, tirariam o odiado PT sem oferecer riscos à sociedade. “As instituições estão funcionando e ele será limitado por elas”, dizem. Ora, tal afirmação seria risível, não fosse trágica. As instituições brasileiras funcionando…Com esse parlamento, com um judiciário que atravessa fronteiras de sua competência a todo momento, com um executivo inexistente…Vamos cair na real: as instituições brasileiras são fragílimas e nunca funcionaram tão mal como agora.

Daí o perigo de eleger alguém completamente despreparado, sem qualquer experiência para o cargo e sem qualquer compromisso com a democracia, com as liberdades individuais e os direitos humanos. Todo mundo minimamente informado sabe disso. Espero que quem esteja votando nele também saiba.

Por outro lado, há essa outra desculpa esfarrapada de equiparar as duas candidaturas – “ambas são extremistas”. Ora, para chamar Haddad de extremista é necessária uma imaginação sem limites. Ou uma infinita má-fé. Por outro, se Bolsonaro não representa a extrema-direita, quem a representará? Chamá-lo de extremista nada tem de ofensivo. Significa apenas respeitar as palavras e designar cada qual por seu nome.

Fala-se também da soma de erros da esquerda. Muito bem. Concordo. Mas esses erros estão muito bem distribuídos por todo o espectro político. Da esquerda à direita, passando pelo centro. Por que pesar apenas um dos lados da balança senão por uma questão de oportunismo político? Seria muito bom mesmo que a esquerda revisasse seu comportamento e reparasse seus equívocos. Mas seria também bom que a direita fizesse o mesmo. Que judiciário, mídia, empresariado, etc. também enxergassem a parte que lhes cabe nesse latifúndio.

Um único partido seria incapaz de levar o país a este caos econômico, moral e político em que nos encontramos.

A responsabilidade é coletiva e não falo apenas das “elites”. Há um indisfarçável mal-estar da classe média tradicional com o protagonismo de “minorias” (que no fundo são maiorias) nos últimos anos: negros, mulheres, LGBT parecem ameaçadores para a “moral das famílias”, quando apenas querem viver suas vidas sem serem oprimidos e participar da sociedade em condições de igualdade. Grupos religiosos intolerantes têm sua participação ativa nesse caldo de cultura reativo e reacionário que se formou na sociedade brasileira.

As consequências estão aí à vista de todos, sob forma de agressões, fake news, violências nas redes sociais, intimidações morais e físicas. Vivemos à beira da anomia.

Não vamos nos iludir, o que está em jogo é o próprio processo civilizatório, do qual participamos com o atraso habitual e a timidez que nos é própria. Até esse pouco está ameaçado.

E também se iludem os que acham que precisamos de autoridade e que um governo forte (para não dizer truculento) colocará “tudo nos eixos”. Isso é falso, porque a História não volta atrás, embora às vezes pareça dar voltas atrás do próprio rabo. Grupos que lutaram por liberdade e igualdade não abandonarão tão facilmente suas conquistas. Vão brigar por elas. Da mesma forma, os que conseguiram promoção na escala social também não se conformarão em voltar ao lugar de origem. Embora atarantados com a perda do pequeno status adquirido, podem, num primeiro momento, embarcar em promessas de demagogos e falsos religiosos. Mas a realidade acaba por se impor, embora esse processo seja custoso para todos os envolvidos, sobretudo para os mais frágeis.

Dito isso, parece bastante claro que não se trata mais de mais uma luta partidária entre tantas, mas de manter o país minimamente no caminho de uma sociedade mais justa e equilibrada. Que esse caminho não se faz em linha reta já sabemos. O que não é possível é “voltar cinquenta anos atrás”, como prometeu o candidato do PSL. Há 50 anos, é bom lembrar, vivíamos sob ditadura e estava-se a ponto de editar o Ato Institucional nº 5 (em 13/12/1968), jogando o país nas trevas e deixando a sociedade à mercê de feras sádicas, objetos de admiração do candidato do PSL.

Não se iluda: você não é neutro. É, no mínimo, cúmplice.  

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