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Por que erramos tanto *

Luiz Zanin Oricchio

17 Setembro 2013 | 10h07

Todo colunista de futebol sabe como é penoso fazer previsões em início de temporada. No meio jornalístico, costuma-se dizer que é a maneira mais fácil de quebrar a cara. Começa um campeonato e lá somos nós convocados a declarar quais clubes decidirão o título, quais os eventuais rebaixados, etc. Como se tivéssemos bola de cristal. Ou como se a condição de especialistas nos desse ferramentas para antever o futuro. Por sorte, no meio do caminho ninguém se lembra mais de cobrar nossas invariavelmente furadas “previsões”.

Não me lembro de alguém ter indicado Cruzeiro ou Botafogo como os dois clubes que estariam disputando o título. No entanto, é o que temos. Tanto assim que o jogo entre os dois, amanhã, já vem sendo tratado por colegas como “final antecipada”, o que acho exagero. Muita coisa ainda pode rolar e atrapalhar os planos de um e outro. Mas é claro que, tanto a Raposa como o Fogão são, hoje, os times a serem batidos.

Mas, no começo do Campeonato Brasileiro, falava-se em outros fortes candidatos. Por exemplo, todos exaltavam a força do Corinthians, o campeão do mundo no ano anterior que já havia começado 2013 arrebatando o título paulista, como aperitivo. Quem diria que o time de Tite, tão badalado, seria desclassificado na Libertadores e hoje ocuparia apenas a sexta posição, cinco pontos atrás do Atlético-PR, o último na zona de classificação para o torneio sul-americano?

Falava-se também no Atlético-MG, tido como o time que pratica o futebol mais eficaz e vistoso do país, hoje na décima posição na tabela. O que houve? E o campeão Fluminense, locatário do medíocre posto de décimo-segundo colocado? E o Internacional, sempre uma promessa por sua força, tradição e elenco caro? Verdade que ocupa o quinto lugar, mas esperava-se que estivesse lá, nas cabeças, disputando o título. Foi muito citado, mais uma vez, como um dos favoritos.

Para cada caso haverá uma explicação, umas mais convincentes que outras. Não se poderia prever que o Atlético-MG ganharia com tanto sacrifício sua primeira Libertadores e, por isso, se colocaria em estado de longa ressaca, como costuma acontecer com os times brasileiros. Outros clubes venderam jogadores na famigerada janela de transferências. O Corinthians perdeu Paulinho, que era seu leme. O Santos, que já não era cogitado a sério para o título, vendeu Neymar, seu principal jogador pós-Pelé. O próprio Atlético-MG desfez-se de Bernard.

Essas oscilações fazem parte da vida de um futebol periférico como o nosso. Não temos mesmo condições de competir economicamente com os grandes clubes europeus. E nem com a Rússia, Turquia ou países árabes. Na verdade, continuamos de pires na mão, na tanga. De modo que desmanches, ou perdas significativas, devem ser previstos como prováveis sempre que se começa o ano civil de um clube do futebol nacional.

Mas, além dessas circunstâncias mais visíveis e óbvias, atuam outras, de forma subterrânea e dificilmente detectáveis. Tirando Paulinho, o Corinthians é praticamente o mesmo. Mas cadê aquela pegada, aquela marcação cerrada, que tornava sua meta praticamente intransponível? O bicho comeu? É sobre isso que deve refletir Tite. O que teria ocorrido com o grupo, alguma coisa interna, como a fadiga do material, o cansaço com a mesmice do estilo? E como combater coisas de natureza tão fluida?

Tomando um caso contrário. Quem poderia imaginar o São Paulo, longe de ter um elenco desprezível, sofrendo tanto em 2013? Como não entendemos muito bem o que ocorre, costumamos colocar a culpa em desafetos, como os cartolas, por exemplo. Certo, mas e agora, se o time melhorar, como dá indícios, com a volta ao Muricybol?

Enquanto não entendermos essas causas internas e misteriosas, que corroem um time até a véspera sólido, ou que, ao contrário, dão liga inesperada entre jogadores sem nada de especial, continuaremos a errar feio em nossas previsões. E, quanto mais erramos, mais interessante fica o futebol.

* Publicada originalmente no Esportes do Estadão