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Por que dançam os técnicos?

Luiz Zanin Oricchio

23 de junho de 2009 | 08h54

Muricy já se foi, depois de fazer do São Paulo tricampeão brasileiro. É pouca coisa? Não era quando o terceiro título foi comemorado. Passou a ser. Falou-se em “desgaste natural” porque Muricy estava no São Paulo havia três anos e esse é considerado um tempo enorme. Mas sir Alex Ferguson não treina o Manchester United há 22 anos? “A Inglaterra é uma coisa, o Brasil é outra”, já ouço dizer algum brasileiro vítima do complexo de vira-lata. Lá as coisas são estáveis, é país de tradição; no Brasil tudo que é sólido se desmancha no ar. Sim, mas sir Luís Alonso Perez, o Lula, não permaneceu na Vila Belmiro por 12 anos? Por que, então, o tempo de Muricy deveria ser considerado imenso, despropositado, um exagero?

Suspeito que seja um sintoma do imediatismo nosso de cada dia. Como vocês sabem muito bem, vivemos numa época em que tudo é para ontem. O serviço que é encomendado e deve ser feito sem demora, a compra que deve chegar imediatamente, o e-mail que precisa ser respondido no ato, o recado no celular que tem de ser retornado em cima da pinta. Por que no futebol seria diferente? Pelo contrário. Como o futebol é uma espécie de laboratório da experiência social, nele tudo se expressa com mais nitidez do que na vida corrente. Ele é uma espécie de retrato ampliado do que acontece no resto da sociedade, em seu todo. Por exemplo, se as relações econômicas e culturais tendem a se globalizar, o futebol se globaliza antes. O futebol seria um sintoma profético do mundo.

Daí que a pressa, o imediatismo, que contamina a tudo e a todos, dá suas caras com maior nitidez no ambiente da bola. Há outros exemplos de técnicos que parecem balançar neste primeiro semestre. Um deles é Vanderlei Luxemburgo, que era considerado intocável nos clubes por onde passou, com exceção do Real Madrid, que o mandou embora. Mas aqui no Brasil era Luxa quem abandonava os clubes e nunca o contrário. Pois agora está sendo contestado no Palmeiras, por parte da cartolagem e também da torcida. Não havia em andamento um “planejamento a longo prazo”, como os figurões tecnocratas gostam de dizer? E daí, acabou o planejamento só porque o time não conseguiu avançar na Libertadores?

Outro ameaçado, e com muito menos tempo de clube que Muricy e Luxemburgo, é Vágner Mancini, no Santos. Domingo, na derrota diante do Atlético Mineiro, a torcida puxou o coro de “burro, burro, burro”, que costuma anunciar a queda de um treinador. Certo, as alterações do técnico, sobretudo a saída de Neymar, não pareceram coisa de gente inteligente mesmo. Mas, até a pouco, pelo menos até a derrota para o Botafogo, Mancini era visto como competente, alguém que havia dado um padrão de jogo ao time, etc. Virou burro de repente? A diretoria já disse que Mancini está “prestigiado”. Mas como ficará se acontecer uma derrota contra o Palmeiras, resultado normal e até provável? Um placar desfavorável pode encerrar de maneira prematura uma gestão que poderia ser das mais interessantes.

Enfim, um técnico deveria ser julgado por seu trabalho de conjunto ou por resultados isolados? Se quem o empregou chega à conclusão de que o profissional não serve para o cargo, por que deve esperar por uma derrota do time para então demiti-lo? E, se entende que contratou bem, por que se desfazer do profissional quando os resultados demoram a chegar?

(Boleiros, 23/6/09)

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