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Polêmicas literárias: direitos e deveres da ficção

Luiz Zanin Oricchio

16 de setembro de 2007 | 10h40

Bem, amigos (para falar como o Galvão Bueno) estou de volta ao Brasil. E, de volta, tenho a – boa – surpresa de receber o Estadão de hoje e ver na capa do Cultura matéria de Ubiratan Brasil, o nosso Bira, sobre As Benevolentes, polêmico romance de Jonathan Littell, que dá voz a um carrasco nazista. Não li o livro, que está saindo agora no Brasil, mas morro de curiosidade. Fez muito barulho na França quando lançado no ano passado e não sem motivo, porque as feridas da 2.ª Guerra e do Holocausto estão abertas e não se fecharão tão cedo, o que é justo, pois se trata simplesmente da História e devemos ter respeito para com essa velha senhora.

Mas, durante a minha permanência em Paris, era outra a polêmica que fervia, envolvendo duas mulheres, Camille Laurens contra Marie Darrieussecq. Acontece que Marie (a quem entrevistei por causa de um livro passado), lançou um romance chamado Tom Est Mort, que está entre os mais vendidos. É a história de uma mãe cujo filho morre e como ela lida com essa perda, virtualmente não assimilável. E também acontece que Camille Laurens, muitos anos antes, havia lançado Philippe, narrativa autobiográfica que contava a morte do seu bebê e da dor e luto que experimentou.

Camille acusou Marie de ter usado uma história real, a dela, Camille, para construir um relato ficcional. Acusou-a de plagiária, nada menos. Escreveu um texto violento na Revue Littéraire e Marie retrucou, mais ou menos no mesmo tom, no Monde des Livres. Editores e intelectuais entraram na parada e o caso ferveu. Assisti na TV a um debate no qual uma crítica literária literalmente chegou às lágrimas ao defender Marie e os direitos da ficção. “Se fôssemos levar isso ao pé da letra, não haveria Crime e Castigo, pois alguém poderia dizer que Dostoiewski se inspirou numa história real”, disse ela, não sem razão.

Num belo artigo no LeMonde, Patrick Kéchichian se vale da polêmica passada, em torno de As Benevolentes, para discutir a atual. Escreve assim no Monde de 11 de setembro: “Recordemos que o livro de Jonathan Littel (Gallimard) vencedor do prêmio Goucourt e da Academia Francesa, enorme sucesso de vendas, provocou igualmente confusão e polêmica. De outra natureza e alcance, esta polêmica atual não deixa de guardar semelhanças com a anterior. Porque se trata exatamente dos direitos – e dos deveres?- do romancista que está em questão. O “realismo” meticuloso com o qual o Jonathan Littell havia pintado, sob a figura fictícia do narrador, um carrasco nazista, havia chocado certos leitores. A interrogação, mais claramente formulada, era saber se é lícito, para um escritor ou um artista qualquer, transformar em arte um episódio trágico da história recente, ainda vivo nas consciências. ”

Acho que aí está toda a questão, que se joga nesse ponto limite entre a liberdade de expressão e a responsabilidade do artista diante do tema de sua escolha.

Por exemplo, para trazer o caso para mais perto de nós: quantos dos livros e filmes feitos sobre a ditadura militar aliaram de fato a liberdade ficcional com a responsabilidade diante de período histórico tão traumático e recente?

Um bom domingo a todos.

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