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Polanski, exorcismo através de imagens

Luiz Zanin Oricchio

17 de agosto de 2011 | 09h17

(Texto que acompanha a entrevista com Christopher Sandford, biógrafo de Polanski, feita por Ubiratan Brasil para o Caderno 2)

Sempre é tentador fazer paralelos entre obra de vida de um artista. Em especial, quando se trata de alguém como Roman Polanski, cuja existência parece desconhecer águas mais calmas. Assim, basta assistir a seus dois longas de início de carreira, Faca n’Água (1962) e Repulsa ao Sexo (1965), para se convencer de que ali estava um artista disposto a explorar o seu meio de expressão da maneira a mais radical possível. Há quem os considere, não sem alguma razão, os melhores de sua carreira.

De qualquer forma, viria muito mais no futuro. Bebê de Rosemary (1968) passa por um dos mais completos – e assustadores – filmes de suspense de todos os tempos. E, como não se envolver com aquela história da garota (Mia Farrow) ofertada pelo próprio marido (John Cassavetes) para gerar o filho do Mal? Tocado ele mesmo pelo mal, com o assassinato de sua mulher Sharon Tate, grávida de oito meses, por um bando de malucos, Polanski representar (ou tentou fazê-lo) a tragédia pessoal em sua sanguinolenta leitura de Macbeth (1971), a já bastante sinistra peça de William Shakespeare.

Em 1974, Polanski ressuscita o noir em seu brilhante Chinatown, drama dos mais envolventes, com Faye Dunaway e Jack Nicholson, e o próprio diretor em um pequeno papel. O terror psicológico, como ator e cineasta, viria reencontrá-lo em O Inquilino (1976), contracenando com a bela Isabelle Adjani. É um estudo sobre o medo, mas não sobre o medo ornamental, divertido, mas sobre o real pânico psicológico.

Nem tudo foi bom. Polanski também dirigiu alguns filmes menos bem sucedidos, como Lua de Fel (1993), baseado na obra de Pascal Bruckner, ou O Último Portal (1999), um tanto obscuro e pouco convincente. Mas reencontrou-se, com brilho, em O Pianista, memória dolorida dos campos de concentração e do gueto de Varsóvia, com um Adrien Brody notável no papel título.

Deve vir mais por aí, com o inédito Deus da Carnificina, que será exibido no Festival de Veneza (31 de agosto a 10 de setembro). Com um título desses, pode-se esperar o melhor (ou o mais terrível) desse fascinante exorcista de imagens.