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Poética e política em O Espírito da Colmeia

Luiz Zanin Oricchio

24 Fevereiro 2010 | 08h39

O espanhol Victor Erice é homem de poucos filmes. Poderia ter feito apenas um – O Espírito da Colmeia (1973) – para entrar na história do cinema mundial. Ele está sendo lançado agora em DVD pela Lume (R$ 49,90), para alegria de cinéfilos que se lembram do impacto causado por esta obra no início dos anos 1970, quando o ditador Francisco Franco (1892- 1975) ainda era vivo – e bem vivo – para os espanhóis.

A referência ao franquismo é importante, pois, sem ser obra política de maneira explícita, O Espírito da Colmeia faz sutil referência às condições da Espanha logo após a Guerra Civil (1936-1939). Tudo se passa num povoado de Castela, em 1940, isto é, na fase de consolidação do governo fascista que derrotara os republicanos e iria reinar durante quase 40 anos sobre a Espanha.

Há um acontecimento importante que movimenta a cidadezinha logo nas primeiras cenas – a chegada de um cinema itinerante, que trará grande atração aos moradores: a projeção de Frankenstein, o clássico do terror de James Whale, filme de 1931, com Boris Karloff no papel do Monstro. Não foi a primeira adaptação do romance de Mary Shelley, mas foi a que fixou no imaginário popular o retrato da fera: grandão, andar desajeitado, cara amassada, mãos em forma de garra, toscos eletrodos fincados no pescoço. É a essa obra que o povoado assiste, de olhos arregalados, no cinema improvisado armado sob uma lona. E, de olhos ainda mais abertos que os outros, estão as duas menininhas, que serão as protagonistas da história.

Uma delas, com seu olhar profundo, ficou famosa no cinema espanhol e mundial – Ana Torrent. Ana é também o nome da sua personagem e ela vê o filme no qual também há também uma garotinha que vê o Monstro e deseja brincar com ele. Chega a lhe oferecer uma flor, mas…Ana (pois este é também o nome da personagem) fica impressionada, junto com sua irmã Isabel (Isabel Telleria). Elas vivem com o pai, Fernando (Fernando Fernán Gómez) e a mãe, Teresa (Teresa Gimpera). Todos os personagens principais têm os mesmos prenomes dos atores. Fernando é apicultor, e escreve textos de grande densidade filosófica. A mãe também escreve. Cartas a um amante, que talvez tenha existido, talvez seja imaginário. O ambiente é silencioso. A casa enorme, mal conservada, cheia de quartos e dependências. Os vidros da janela são emoldurados como os alvéolos de uma colmeia. Tudo é metafórico e alusivo nesse filme de ritmo pensativo e luz esplendorosa.

E tudo passa, desde o início, a ser “narrado” pelo ponto de vista do olhar negro e profundo de Ana Torrent. As duas meninas se entregam a pequenas brincadeiras e dão sustos uma na outra. Obviamente, como todos sabem, quando crianças fingem um medo de mentira é porque precisam controlar, psiquicamente, um medo que de fato existe. Esse medo está em toda parte, na vastidão do campo nu, no vento que sacode as árvores, na luz que bate no vidro da janela, com seus gomos em forma de alvéolos, no trem que passa pelos trilhos e se afasta do vilarejo. Nos cogumelos venenosos, que o pai ensina a distinguir daqueles que são bons para comer. Em certo sentido, O Espírito da Colmeia é um tratado sobre o medo. A casa grande é uma colmeia, a Espanha toda é uma colmeia, disciplinada, hierarquizada, com papéis bem definidos de forma rígida. Ai de quem não se adequar a eles.

Por exemplo, há um acontecimento adicional quando aparece um homem ferido e se esconde na fazenda. Ana lhe dá alimento. É um soldado republicano, fugido dos franquistas. A relação da criança com o adulto escondido é das mais misteriosas. Aliás, tudo é mistério pois, filtrada pelo olhar infantil, a realidade se mostra um tanto mágica, como imersa nas brumas de um sonho, talvez de um pesadelo do qual não se consegue despertar. Não, esse pesadelo não é construído em tons escuros, segundo o clichê clássico. É um pesadelo solar, iluminado pela luz do campo espanhol, essa luz que os pintores buscavam captar em suas telas e está reproduzida na fotografia magnífica deste filme intrigante. Sempre podemos decifrá-lo e ainda assim ele nos reservará alguns segredos. Depois de vê-lo, ficamos com muitas imagens na cabeça. A mais permanente: os olhos negros de Ana Torrent. Insondáveis.

(Caderno 2, 24/2/10)