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Poesia

Luiz Zanin Oricchio

28 de fevereiro de 2011 | 23h52

Não é por acaso que a protagonista de Poesia esteja sofrendo do Mal de Alzheimer. Esquece palavras familiares, como se as referências que tornam o mundo inteligível começasse a se fragilizar. Também não é por acaso que, sem se dar conta disso, entre para um curso de poesia, cuja tarefa principal será a redação de um poema. Através da sensibilização pela palavra, a poesia pode ser uma maneira de devolver ao mundo a sua precária inteligibilidade.

Quem é essa protagonista? A senhora Mija (Jeong-Hie Yun), uma mulher de sessenta e poucos anos, que cria um neto problemático e cuida de um idoso para complementar a renda. Mas a história de Poesia começa com a descoberta do corpo de uma adolescente, Agnes, boiando no rio. Mais tarde, a história desse suicídio juvenil se enroscará com a vida de Mija de maneira fatal.

Essa é arte do coreano Chang-Dong Lee: as partes não precisam se encadear de maneira sistemática. Existem por si sós, como peças de um mosaico, que, soltas, farão sentido em sua totalidade. De modo que há uma tragédia como pano de fundo, mas o que aparece em primeiro plano é essa pacata senhora às voltas com seus problemas de saúde, com um neto talvez não muito confiável, com suas tentativas literárias, com um ancião lúbrico, e a premência de arrumar vultosa soma. Sim, o dinheiro será uma espécie de linha fina que dará costura aos diversos elementos dessa trama muito bem construída.

Chang-Dong Lee filma com simplicidade. É rude quando deve ser, poético quando o momento exige. Trabalha com essa tensão aguda entre uma realidade que pode ser brutal e a tentativa de sublimá-la através da arte. O cinema é assim. A poesia, claro, também o é. A arte não visa afastar o artista ou o espectador (ou leitor) da realidade. Pelo contrário – quando é grande, permite uma imersão mais completa nesse real, que de outra maneira seria inatingível. É o que descobrirá Mija quando puder concluir seu poema. Como ensina seu professor, a poesia deve vir do coração. No fundo, é mais do que isso. É pela própria imersão na dor do mundo, até então ignorada, que senhora Mija vai adquirir uma visão mais profunda de tudo aquilo que está lhe acontecendo. A poesia ajudará a dar forma a essa sensação talvez insuportável.

Como artista da imagem, Chang-Dong Lee sabe que não deve dizer tudo com palavras. É econômico. Não teme elipses e alusões. Confia na capacidade expressiva do rosto de sua atriz para evocar sentimentos. Não precisa dizer que Mija se compadece da mãe da garota morta, e que essa compaixão, para ela, será algo de contraditório, pois envolve também o neto querido. Seu rosto o diz, mais do que o fariam diálogos explicativos. Poesia se faz entre palavras e silêncios. É belo de doer.

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