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Poe

Luiz Zanin Oricchio

15 de janeiro de 2009 | 10h52

Também motivado por outra efeméride, os 200 anos de Edgard Allan Poe, reli durante as férias o único romance do autor – A Narrativa de Arthur Gordom Pym. Reler, aqui, talvez seja dizer muito. Lembrava-me dele de maneira vaga, talvez o tenha conhecido na infância ou na adolescência, em alguma versão condensada. Lembrava apenas da terrível história de um naufrágio, com o narrador e companheiros levados ao canibalismo para sobreviver. Li agora na bela edição da Cosac Naify, que contém um posfácio de ninguém menos que Charles Baudelaire, tradutor de Poe para o francês. O estilo de Poe é magnífico – e terrível – como as próprias obsessões do autor. Primeiro, a claustrofobia; depois, o desvão escuro da mente humana, em especial quando levada a situações-limites. A descrição da cena de canibalismo é um primor de suspense. Em sua concisão, o narrador diz que vai relatá-la de maneira rápida, tamanho seu horror em evocá-la. E essa concisão é o que ela tem de mais inquietante; ficamos a imaginar detalhes de que o texto nos poupa. Ou melhor, que insidiosamente deixa a cargo da nossa imaginação recriar, e amplificar. A segunda parte do livro, a expedição rumo ao pólo Sul é vertiginosa. Termina sob a forma de uma epifania – o universo branco que a tudo devora. Morte, indefinição de limites, redenção. O que pode ser lido aí? Tudo isso e mais alguma coisa. O livro é imenso; um impacto de tirar o fôlego. Permanece conosco. Para sempre.

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