As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Poder jovem toma Brasília de assalto

Luiz Zanin Oricchio

23 de novembro de 2010 | 08h33

Em sua 43.ª edição, o mais antigo e tradicional festival de cinema do País faz uma opção radical pelo novo e pelo experimental. De fato, olhando para a lista dos concorrentes, dificilmente você poderá identificar um nome reconhecível. Com as possíveis exceções de João Jardim e Eryk Rocha, que já andaram pelo circuito dos festivais mais conhecidos e tiveram seus filmes lançados em circuito comercial, os outros parecem estrelas novas na galáxia do cinema.

Divulgação

 

“Foi uma opção deliberada”, garante Fernando Adolfo, diretor do festival. Um recorte que começou a nascer com a escolha da comissão de seleção, composta por gente jovem e adepta de determinado tipo de cinema: os cineastas Bruno Saffadi (RJ) e Jefferson De (SP), o crítico Marcelo Miranda (MG) e a produtora Andrea Gloria (DF), além do próprio Fernando Adolfo, que sempre integra os grupos.

Fernando conta que 38 longas se apresentaram, dos quais apenas 21 satisfaziam o requisito de “ineditismo preferencial”, ponto de honra do Festival de Brasília. “Fomos vendo e discutindo os filmes e verificamos que a seleção se encaminhava para esse recorte, com ênfase no cinema experimental jovem; então fomos nessa direção”, diz.

Havia alternativas ou a falta de opções é que ditou o formato? Fernando garante que era isso mesmo que eles queriam, mas admite que o critério de ineditismo pode forçar a escolha em certas direções. Em anos anteriores, por exemplo, Brasília quase se transformou em mostra de documentários, pois rareavam os filmes de ficção inéditos. Mas é claro que o perfil da comissão de seleção escolhida também determina o desenho de festival que se verá na tela do Cine Brasília.

O festival tem início hoje à noite no Teatro Nacional e conta na abertura com um hors concours perfeito para o perfil adotado para 2010 – Liliam M: Relatório Confidencial (1974), do veterano Carlos Reichenbach, ícone do cinema de empenho produzido a baixo custo e ídolo dos realizadores iniciantes. Entre os jovens, Carlão talvez só perdesse um campeonato de popularidade para o já falecido Rogério Sganzerla. “Reichenbach tem seu nome ligado a Brasília”, lembra Fernando Adolfo. Competiu várias vezes, foi júri e venceu em 1993 com o libertário Alma Corsária.

Na forma, Brasília conserva seu esquema de programação inalterado há anos – competição de apenas seis longas, “de preferência” inéditos e 12 curtas-metragens. Além deles, há o concurso de cinema digital, que substitui a bitola em extinção de 16 mm.

Menos usual é a escolha dos concorrentes deste ano, com todos os longas, com uma ou outra possível exceção, enquadrados no figurino do cinema experimental, de pouco ou nenhum apelo de público. É o formato consagrado por outro festival, bem menos rodado que o de Brasília, o realizado pela cidade histórica de Tiradentes, em Minas Gerais. Por isso, nos bastidores do mundo do cinema, muita gente já chama essa edição de Brasília de “Tiradentes no Planalto”. “Se ficou assim, não foi de propósito”, defende-se Fernando Adolfo. Mas a impressão fica. Basta checar a lista dos longas em competição.

Além de João Jardim, com Amor?, e Eryk Rocha, com Transeunte, concorrem Felipe Bragança e Marina Meliande com A Alegria, Tiago Mata Machado com Os Residentes, Sérgio Borges com O Céu sobre os Ombros e Marcelo Lordello com Vigias. Não se pode culpar os leitores se perguntarem: “Quem são essas pessoas?”Façamos as apresentações, de modo sumário.

Tiago Mata Machado foi crítico de cinema e apresentou seu primeiro longa, O Quadrado de Joana, no Festival de Tiradentes. Os Residentes é seu segundo longa. O Quadrado mostra uma garota presa em seu mundinho, no convívio com um sem-teto. Uma espécie de laboratório do que seria um filme, não lhe falta criatividade.

Felipe Bragança e Marina Meliande ganharam a Mostra de Tiradentes com seu primeiro longa, A Fuga da Mulher Gorila. O filme que concorre em Brasília, A Alegria, é o segundo longa da dupla. Mulher Gorila e A Alegria fazem parte de uma trilogia que chamaram de Coração no Fogo. Pela amostra de Mulher Gorila, pode-se esperar coisa boa de A Alegria, sempre no registro do cinema de narrativa porosa, nada convencional.

Já Sérgio Borges é novidade total: tem em O Céu sobre os Ombros sua estreia no longa-metragem e nada se conhece de suas preferência estéticas. Sabe-se apenas que é um dos fundadores da produtora mineira Teia, que se destaca por seus filmes experimentais, de linguagem cinematográfica inovadora.

Marcelo Lordelo, um brasiliense que vive há dez anos no Recife também é estreante em longas com Vigias, documentário sobre vigilantes noturnos.

Não é de hoje que Brasília tem tido dificuldade em formar a sua linha de competição. Em má posição no calendário nacional (fim de ano, virtualmente o último festival do exercício), tem enfrentado a concorrência de eventos mais novos, porém poderosos, como a Première do Festival do Rio e o Festival de Paulínia, que distribui prêmios valiosos.

Impasse. Brasília ficou com o renome – e também com uma boa premiação em dinheiro. Antes, era mais fácil arranjar competidores. Com poucos festivais ao longo do ano, os donos dos filmes se matavam para estar em Brasília. Concordavam, sem qualquer problema, em manter os títulos inéditos, como se pedia. Hoje o Brasil tem mais de 200 festivais ao longo do ano, alguns deles bastante atraentes para cineastas e produtores. Assim, pouca gente se anima a guardar seus filmes para a mostra da capital federal. Brasília tem sentido a força da estiagem. Em anos recentes a combateu lançando mão de documentários, mais abundantes na produção nacional e menos cobiçados que os filmes de ficção. Encontra-se à beira de um impasse.

Conseguirá manter esse formato? A resposta a essa pergunta será mais uma das emoções desta 43ª edição, que promete ser quente. “Num dos seminários, entidades de classe dos cineastas e produtores do DF irão discutir os rumos do festival”, diz Fernando. Tudo está em aberto. Com a vitória de Agnelo Queiroz (PT), assume um novo governo no Distrito Federal e as mudanças irão repercutir em todas as partes – inclusive no festival.

OS CONCORRENTES

Longas
A Alegria, de Felipe Bragança e Marina Meliande (RJ)
Transeunte, de Eryk Rocha (RJ)
Os Residentes, de Tiago Mata Machado (MG)
O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges (MG)
Amor?, de João Jardim (RJ)
Vigias, de Marcelo Lordello (PE)

Curtas
Cachoeira, de Sergio José de Andrade (AM)
Fábula das Três Avós, de Daniel Turini (SP)
Angeli 24 Horas, de Beth Formaggini
Contagem, de Gabriel Martins e Maurilio Martins (MG)
Acercadacana, de Felipe Peres Calheiros (PE)
Braxília, de Danyella Proença (DF)
Matinta, de Fernando Segtowick (PA)
Falta de Ar, de Érico Monnerat (DF)
A Mula Teimosa e o Controle Remoto, de Hélio Villela Nunes (SP)
Café Aurora, de Pablo Polo (PE)
O Céu no Andar de Baixo, de Leonardo Cata Preta (MG)
Custo Zero, de Leonardo
Pirovano (RJ)

Tudo o que sabemos sobre:

cinema brasileiroFestival de Brasília

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: