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Pobre futebol inglês

Luiz Zanin Oricchio

08 Novembro 2006 | 17h08

Como pobre? Não é o mais rico do mundo? Sim, por um lado. Mas, como mostra uma boa reportagem da revista francesa L’Express, com o controle dos grandes clubes como Manchester e Chelsea pelos oligarcas russos e milionários americanos, com a corrupção, transferências duvidosas e a enxurrada de dinheiro de origem não comprovada, toda uma cultura popular parece em via de desaparecer na Grã-Bretanha. Hoje, constata a reportagem de Boris Thiolay na L’Express de 25 de outubro, a classe operária inglesa foi excluída do universo do futebol. Os altos investimentos elitizaram a ida aos estádios, tornando-o templo de “famílias felizes, turistas, neófitos e yuppies”. Os outros, que vejam na TV do pub, se quiserem e puderem.

“A enxurrada de dinheiro matou a alma do futebol inglês”, deplora o escritor John King, autor do livro Football Factory, história de uma família proletária torcedora fanática do Chelsea. Essa época passou, constata o escritor: “Hoje, o torcedor é considerado acima de tudo um consumidor”. Vale pelo que gasta no campo.

A reportagem fala ainda dos desmandos desses miliardários cuja existência o fisco britânico parece ignorar, a ação pirata de intermediários (os tais “empresários” de jogadores), as caixinhas e gorjetas que silenciam consciências e que se contam na casa de milhares ou às vezes centenas de milhares de euros. Recentemente, diz a revista, a BBC lançou um documentário mostrando esse submundo, filme chamado, sintomaticamente, de Os Sujos Segredos do Futebol. Revela que nada menos que 362 transferências de jogadores foram consideradas suspeitas pela Scotland Yard apenas em 2006, mas a maioria dessas investigações, misteriosamente, morreu na praia. Tudo parece muito suspeito, inclusive a negociação do nigeriano de 16 anos John Obi Mikel, disputado entre Manchester United e Chelsea e arrematado por este último pela bagatela de 16 milhões de euros.

Como acontece com quase tudo que vem da imprensa européia, esta reportagem é muito boa, e também muito autocentrada. Eles se preocupam com os estragos que a enxurrada de dinheiro está causando no futebol deles mas em nenhum momento perdem ao sono em relação ao que acontece com o nosso futebol (quer dizer, o brasileiro, argentino, africano, etc.) que vem sendo sistematicamente saqueado pelo poder econômico europeu.

Também, se nem os nossos comentaristas esportivos parecem se preocupar com essa relação econômica desigual entre Europa e resto do mundo, porque o fariam por nós os ingleses e franceses?