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Pintar ou Fazer Amor

Luiz Zanin Oricchio

16 de outubro de 2006 | 17h34

Não há como ficar indiferente quando estão na tela atores como Daniel Auteuil e Sabine Azéma. São atores, não bonecos. Isso quer dizer que sempre que estão em cena algo de interessante acontece, de maneira explícita ou sugerida. Há muito silêncio, há muito jogo de reticências e elipses significativas até entrar em quadro o verdadeiro personagem deste Pintar ou Fazer Amor – o desejo humano e suas variantes paradoxais.

Auteuil é William e Sabine é Madeleine, casal de meia-idade pronto para uma entrada tranqüila na velhice. Mais ainda porque William acabou de se aposentar (era meteorologista) e Madeleine busca na pintura uma distração. Moram no campo, num lugar maravilhoso, e tornam-se amigos do prefeito Adam (Sergi Lopez) e sua mulher, Eva (Amira Casar). Por um momento, nota-se falta de sutileza neste filme de Arnaud e Jean-Marie Larrieu: Adão e Eva, o homem e a mulher primevos, tocados e unidos pelo pecado original. Mas esta alusão bíblica não dura senão um momento, e logo estamos de novo imersos na delicadeza da campanha francesa, no bucólico de uma cidadezinha minúscula ao norte do país, na convivência de seres humanos em aparência apaziguados.

Essa visão campestre evoca alguma coisa de Renoir e, talvez, de Rohmer. Existe alguma coisa de lírico, silvestre e fresco que, depois, será quebrado pela insinuação na história linear do elemento ambíguo do desejo. É como se o espectador, até um certo ponto do filme, estranhasse a ausência de conflito na trama (uma exigência hollywoodiana, já tida como indispensável pelo gosto médio) e se perguntasse aonde aquela história poderia ir. Como se essa hipotética ausência de conflitos conduzisse o enredo a uma irremediável monotonia campestre.

Mas depois que tudo começa a se transformar (e não diremos o quê), o filme passa a funcionar como uma espécie de thriller do inconsciente, no qual o espectador é levado a se perguntar sobre os motivos do comportamento dos personagens. E, como sabemos, para certo tipo de pergunta não existem respostas, pelo menos respostas claras, unívocas, irretocáveis. Tudo o que se pode fazer é formular hipóteses. E estas caberão à capacidade de imaginação do espectador – a quem, afinal, o filme é destinado.

Esse thriller sexual-existencial, talvez não funcionasse tão bem não fosse a sobriedade da filmagem, clara, límpida, sem penduricalhos. Capaz, portanto, de dar todo o relevo a uma história em aparência calma, mas que sugere alguns turbilhões abaixo da linha d’água. Existem também algumas alusões, resisto até a chamá-las de simbolismos, como os já citados nomes do casal, Adão e Eva, e também o fato de que o personagem de Sergi López seja cego. Há um ponto em que o desejo não se deixa descobrir, mesmo que se olhe para ele de todos os lados. É o que lhe dá força e mobilidade, afinal.

(SERVIÇO)Serviço Pintar ou Fazer Amor (Peindre ou Faire l’Amour, França/2005, 100 min.) – Comédia. Dir. Arnaud Larrieu, Jean-Marie Larrieu. 14 anos. Cotação: Bom

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