Piedade é apenas um retrato na parede. Mas como dói. 
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Piedade é apenas um retrato na parede. Mas como dói. 

Luiz Zanin Oricchio

05 de agosto de 2021 | 11h38

Assisti de novo a Piedade e garanto que fica ainda melhor que da primeira vez. Vi-o em dois contextos bem diferentes. A primeira, no caloroso ambiente do Cine Brasília lotado, com o público empolgado do festival. A segunda, no recesso de casa, no confinamento da pandemia. Há que acrescentar à experiência esse intervalo de tempo, de quase dois anos, agora com o país jogado no caos de um antigoverno destrutivo e um saldo de 560 mil mortos no maior genocídio da nossa história. 

Quem revê um filme já conhece o enredo e presta mais atenção aos detalhes. O filme cresce, entre outras razões porque é muito bem realizado, com a direção sempre enérgica e inventiva de Cláudio Assis. 

Há, em Piedade, dois núcleos de enredo, destinados a se entrelaçar apenas no final.

No primeiro deles, uma região litorânea ameaçada por uma companhia petrolífera fictícia, a Petrogreen. Associar o ouro negro ao verde das matas e à pureza das praias é apenas uma das ironias contidas neste filme de vários vértices. Há a questão ecológica, a gentrificação que expulsa as pessoas de seus locais de origem, as lutas sociais. 

A arrogância do capital é personificada em Aurélio (Matheus Nachtergaele), agente da companhia petrolífera que deseja comprar as terras. Aurélio surge no ambiente dominado por Dona Carminha (Fernanda Montenegro) e seu filho Omar (Irandhir Santos) como uma espécie de anjo exterminador. Investe mesmo numa intriga familiar para desestabilizar o clã e facilitar o negócio. 

No outro núcleo, um homem (Cauã Reymond) administra uma espécie de “complexo de sexo”, com um cinema pornô acoplado a um bordel. Há algo que o liga à pequena aldeia da praia, mas o elo só se estabelece ao final. Uma sequência serve de exemplo para o dispositivo cinematográfico de Assis. Pai e filho (Cauã Reymond e Gabriel Leone) discutem enquanto se dirigem à porta de saída do estabelecimento. Uma câmera os acompanha de cima, em plano sem cortes, saindo do cinema e passando por um corredor estreito com portas para vários quartos nos quais as pessoas fazem sexo. As palavras dizem uma coisa, as imagens mostram outra. Por fricção se completam e incendeiam a tela – e a imaginação de quem vê o filme. 

A trama traz algo de folhetinesco, uma história de irmãos que se perderam, filhos extraviados que enfim entram em conexão. Laços de afeto mantidos apenas pela memória, mas, mesmo assim, sólidos e resistentes ao tempo. Em entrevistas, Assis se refere a um fato da sua biografia pessoal, o tema do irmão desaparecido. 

Essa história envolta em afeto ganha corpo num tipo de filmagem pulsante de vida. Nos filmes de Assis sente-se o calor, os cheiros, a graça, a paixão contraditória dos personagens, o sexo, o desejo. Tudo em conexão com a política, com a conjuntura histórica, que é o tema comum de nossas vidas de seres sociais. 

No debate em Brasília, Matheus Nachtergaele, fez uma intervenção iluminadora, refletindo sobre seu personagem. Disse que nos primeiros papéis de sua carreira havia interpretado tipos do Brasil profundo, como por exemplo João Grilo, do Auto da Compadecida. Agora vivia um personagem que, no país contemporâneo, era também um tipo brasileiro, já incorporado à paisagem, solidificado, quase “de raiz”: o arrivista que só pensa em dinheiro, manipulador, o tipo dominante no país que enaltece o empreendedorismo e a meritocracia como as virtudes cardeais. Há um universo de reflexão contido nessas poucas palavras. De onde viemos, como nos perdemos a ponto de chegarmos a esse estado atual? Isso sem pensarmos em quanto o país se deteriorou, da época em que o filme foi feito até os nossos dias. 

É o Brasil contemporâneo, no qual não se permite sonhar, o país brutal, materialista e impiedoso, o país das milícias. Por isso, esse país implacável, por ironia, materializa-se num local imaginário chamado Piedade. O sarcasmo é brutal. Dói. Mas a boa arte é feita tanto de prazer como de dor.