Piauí na jogada
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Piauí na jogada

Luiz Zanin Oricchio

06 de outubro de 2006 | 18h43

piaui

Tem nova revista na praça, a Piauí, de João Moreira Salles, editada pelo Mario Sergio Conti. Em formato maior do que o habitual, a Piauí também se distingue por outros motivos. Não tem colunas, “porque não é templo grego”, brincam seus editores. E nem tem um editorial, como é de praxe, em especial no primeiro número, para falar das intenções, propostas, etc. Ao que parece, ela se deseja uma revista de textos, embora com bom acabamento gráfico. Quer dizer, destina-se ao leitor que gosta de ler (ó, pleonasmo, mas só aparente) e por isso alguns desses textos são bem extensos. Seria algo entre a antiga Realidade e a New Yorker.

O cardápio, variado, abrange uma matéria sobre as garotas do telemarketing, o seqüestro do engenheiro brasileiro no Iraque, um artigo sobre o jornalista americano que entrevistou Fidel Castro para o New York Times em plena Sierra Maestra e um conto inédito de Rubem Fonseca. Textos legais, em especial esse sobre Fidel. A tese da Piauí é que Fidel chefiava uma guerrilha estagnada na sierra, e até era dado como morto, quando o repórter Herbert Matthews o entrevistou e assim criou um caso internacional. O esperto Castro utilizou essa repercussão com finalidade política e desse modo a entrevista teria sido um dos fatores decisivos na vitória da revolução. Texto ok, mas parece conceder importância demais ao papel da imprensa nesse caso. Quem conhece um pouco da história cubana sabe que a revolução não venceu apenas porque 82 malucos desembarcaram do iate Granma, ocuparam a sierra e avançaram sobre Havana. Havia outros fatores, entre os quais uma concertação revolucionária interna, com guerrilha urbana, etc. Aliás, esse tema da guerrilha urbana em Cuba é pouco explorado: é tema do belo filme de Fernando Perez, Clandestinos, que pouca gente conhece.

Enfim, a revista tem atrativos, mas parece ainda em fase de definição de rumos, o que é normal em publicação nova. Já algumas matérias, vendidas como carros-chefe, não me pareceram muito sedutoras. Por exemplo, Retorno ao Rio, que narra a volta de Ivan Lessa à cidade depois de quase 30 anos de ausência. Falei sobre esse furo de reportagem a um amigo aqui na redação e ele me respondeu: “Ele voltou? E daí?”. É o que pergunto também: e daí? Na companhia das impressões de Lessa sobre este país que ele preza tanto, eu colocaria as considerações de Danuza Leão sobre o estilista Guilherme Guimarães na matéria O cheiro de cimento me inebria. E daí?, mais uma vez. Mas o resto da revista está legal, embora eu esperasse mais.

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