Peter Jackson enche linguiça em O Hobbit
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Peter Jackson enche linguiça em O Hobbit

Luiz Zanin Oricchio

14 de dezembro de 2012 | 08h57

 

Peter Jackson precisa fazer três filmes longos a partir de um livro pequeno como O Hobbit, de Tolkien. Só esse reduzido material, que deve render mais uma bilionária trilogia, pode explicar a prolixidade do diretor. Tudo toma muito tempo em Hobbit – Uma Jornada Inesperada, como se o cineasta necessitasse alongar ao máximo cada sequência para que, no final, tivesse suas quase três horas garantidas apenas nesta primeira etapa da trilogia. Para falar no popular: ele enche linguiça mesmo.

De modo que quem já não estiver conquistado por antecipação pela série corre o risco de cair no sono de tédio. Só a introdução, com o hobbit Bilbo Bolseiro recebendo a visita de Gandalf e depois dos personagens que o levarão à aventura, já leva horas (ao menos no tempo psicológico de quem assiste). Depois, há os combates, demorados, repetitivos, com uma qualidade técnica impecável, que não disfarça a sensação de déjà vu.

Claro, convém não carregar nas tintas para não arruinar o argumento. O filme é um tanto balofo e se beneficiaria de dieta impiedosa na montagem. Mas tem cenas interessantes e algumas até muito belas. As interessantes surgem quando da entrada do Gollum em cena, com o duelo de adivinhações com Bilbo. É bom. Há depois as aves gigantes que salvam os aventureiros. A sequência produz alguns dos raros momentos eletrizantes do longa (e ponha longa nisso). Exceções em meio à rotina.

A base do filme – aliás, a base de Tolkien – é nobre: os mitos. O mito é uma narrativa que remonta às origens. Através de uma história, passada de uma geração a outra, fala de algo que vai além dela, da estrutura do grupo. Por isso, toca as pessoas em algum ponto do qual nem mesmo elas se mostram conscientes. O tal inconsciente coletivo, de Jung. Ou coisa que o valha. “A história fala de você” (De te fabula narratur), dizia Horácio, o poeta latino. Serve para toda a ficção. No caso do mito isso é ainda mais verdade. Fala de nós o tempo todo.

Daí também que especialistas em mitos, como Joseph Campbell e Christopher Vogler (A Jornada do Escritor), sejam tão citados e cortejados em Hollywood. Desde Guerra nas Estrelas, e talvez até antes, o mito se transformou no Graal dos roteiristas, uma espécie de madeira de lei sobre a qual podem assentar construções precárias que, mesmo assim, permanecem em pé.

É um pouco desse jeito com O Hobbit. Tem alicerces firmes, ancestrais, mas a construção recente, frágil e infantiloide, se sustenta mais por efeitos especiais e sacadas tecnológicas duvidosas (o que é isso de 48 frames/segundo? Alguém vê, alguém nota?) do que por verdadeiro talento. Faltam uma boa história e uma dramaturgia ao menos aceitável.

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