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Péter Forgács e as fraturas da História

Luiz Zanin Oricchio

15 de fevereiro de 2012 | 09h59

As fraturas da Histórias são as que mais interessam Péter Forgács. Talvez o nome não seja muito conhecido por aqui, embora alguns dos seus filmes já tenham sido exibidos no Festival É tudo Verdade, um evento dedicado aos documentários. Ela é tema da mostra Forgács: Arquitetura da Memória, que começa hoje no CCBB e traz um panorama bastante amplo do trabalho desse cineasta húngaro.

Na retrospectiva, destacam-se as obras que o tornaram internacionalmente conhecido, a série, composta de 15 filmes, Private Hungary. Forgács é um arqueólogo. Trabalha com filmes caseiros e “found footages” (filmes descobertos). Materiais deixados por amadores, que registravam o seu dia a dia em pequenas câmeras e guardavam lembranças de casamentos, viagens, festas de família, um nascimento, mortes -– o desenrolar da vida cotidiana. Como muitas dessas filmagens se realizaram entre os anos 1920 e 1930, são imagens que parecem felizes e descuidadas, sem que nelas se pressentisse a armadilha da História, prestes a se fechar sobre os personagens.

É assim, por exemplo, em The Bartos Family, sobre a família dizimada pelo Holocausto, registrada em seus filmes domésticos que vão de 1920 a 1960. Mesmo caso de O Turbilhão – uma Crônica Familiar, sobre os Peereboom, uma família holandesa, em filmagens realizadas antes e durante a 2ª Guerra Mundial. São filmes de poucos diálogos, até mesmo pela natureza da técnica empregada. Em O Turbilhão, as imagens são acompanhadas por alguns poucos textos explicativos e a maravilhosa música de jazz composta por Tibor Szemzö. Vemos as festas, o casamento, o nascimento do bebê, a vida tranquila até a ascensão do nazismo, a invasão da Polônia e, em seguida, da Holanda e outros países. Há mesmo cenas das mulheres se preparando para serem transferidas a Auschwitz, como se fossem para uma viagem qualquer. É tocante.

O tema da perseguição aos judeus aparece o tempo todo, e de formas diferentes. Se, em alguns casos, temos a crônica familiar, em outros é a aventura coletiva, como em O Êxodo do Danúbio, sobre a saída dos judeus da então Checoslováquia pouco antes da guerra. Em dois barcos, um grupo de 900 pessoas tenta alcançar o Mar Negro através do Danúbio e de lá chegar à Palestina. No caso, os filmes utilizados por Forgács foram os do capitão de um dos barcos, Nándor Andrásovits.

A disposição de Forgács, conforme nota Bill Nichols em seu livro Introdução ao Documentário, não é fornecer uma explicação totalizante sobre a guerra, nem mesmo polemizar ou fazer um discurso humanista. Procura apenas entender a percepção das pessoas que viviam aqueles momentos, por meio dos próprios registros que elas deixaram. Em Êxodo do Danúbio, por exemplo, ele sugere que a guerra, para seus participantes, foi um enorme fluxo de pessoas, através de vários países. Êxodos civis, casos de perdas de raízes locais e de referências. Conforme diz Nichols (que estará em São Paulo, debatendo com Forgács hoje, após a sessão das 18h), o cineasta não quer impor nada – deseja apenas que o espectador tire as suas próprias conclusões a respeito do que vê na tela.

Mesmo porque, embora se concentrando sobre a questão judaica e a experiência da 2ª Guerra, o universo de Forgács contempla outras variantes. Em El Perro Negro são as lembranças da Guerra Civil Espanhola que vêm reapresentadas sob ângulo novo, como conflito entre o norte desenvolvido e o sul semifeudal. Tractatus de Wittigenstein compõe-se de filmes ensaios que, através de imagens domésticas, procuram comentar e discutir as ideias do filósofo.

(Caderno 2)

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