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Periferia na fita

Luiz Zanin Oricchio

23 Novembro 2006 | 10h26

Agradou em cheio ao público o primeiro concorrente do Festival de Brasília, Jardim Ângela, de Evaldo Mocarzel. O filme surge meio que por acaso. O diretor vai dar uma oficina de cinema no bairro, um dos mais pobres da capital, e acaba descobrindo que os problemas do local invadem o set de filmagem. Ou seja, as pessoas, quando podem filmar (ou escrever, ou pintar), falam de si mesmas. E de seus problemas. A questão: que imagem de mim quero passar ao outro? E os meninos que participam da oficina acabam debatendo essa alternativa: passar uma imagem “positiva”, que vê a luz no fim do túnel, ou a realidade brutal, com toda a violência que ela comporta? Todo cineasta precisa ter sorte e Evaldo teve: encontrou um personagem, Washington, que conduz a narrativa, com sua inteligência e vivacidade. Chamar-se Washington talvez seja a menor das ironias na existência desse garoto de 18, cujas marcas de balas no corpo são como tatuagens da sua trajetória de vida. O filme não é condescendente e a realidade obriga o diretor a enfrentar o real cru que tem diante dos olhos, sem a proteção do humanismo cristão que enfraquecia alguns dos seus trabalhos anteriores.