Perfume exótico, para perturbar
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Perfume exótico, para perturbar

Luiz Zanin Oricchio

06 de outubro de 2006 | 20h10

Fui ver em sessão da imprensa (jornalistas têm esse privilégio) o novo filme de Heitor Dhalia, O Cheiro do Ralo. Confesso que não gosto muito do filme anterior de Dhalia, Nina, baseado em Crime e Castigo de Dostoievski, que me pareceu muito afetado, visualmente. Por isso, fiquei surpreso com o novo trabalho dele. O Cheiro do Ralo, baseado em romance do underground Lourenço Mutarelli, acerta em cheio. E como? Radicalizando a linguagem para descrever um universo sórdido, mas tenso de tanta humanidade.

Selton Mello é Lourenço, um crápula absoluto. Dono de uma loja de objetos usados, vive da exploração alheia: compra coisas de que está em estado de desespero por falta de grana. Lourenço tem uma obsessão: o derrière de uma garçonete que conhece num bar de quinta categoria.

O escritor Mutarelli faz no filme o papel de segurança da loja, instalada num espaço amplo e decadente, provavelmente uma fábrica abandonada. Os tipos que lá vão vender seus objetos compõem uma verdadeira fauna. E o cheiro que empesta o ambiente provém de um determinado ralo entupido no banheiro. Clima pesado e tudo isso é metáfora de uma profunda decadência humana. No entanto, o filme tem humor e até uma ponta de simpatia por personagem tão extravagante quanto esse agiota que ganha vida por um Selton Mello iluminado.

A pequena platéia que assistia ao filme na sessão privada no CineSesc ria o tempo todo. Eu também me diverti bastante. Mas, confesso, o riso tinha um certo travo amargo. O Cheiro do Ralo está na relação dos filmes brasileiros bem radicais, na (boa) companhia de Crime Delicado, de Beto Brant, que estreou no ano passado. Esses sabores (e cheiros) exóticos dão uma sacudida no marasmo atual do cinema politicamente correto. ralo
Selton Mello é Lourenço, no universo dark de Mutarelli

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.