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Perfil de Carlos Coimbra (1925-2007)

Luiz Zanin Oricchio

14 Fevereiro 2007 | 14h40

Morreu ontem, com 81 anos, o cineasta Carlos Coimbra. Nascido em Campinas em 1928, Coimbra dirigiu filmes bastante conhecidos em sua época, como o patriótico Independência ou Morte (1972), lançado em plena ditadura Médici.

Foi nome importante no chamado “ciclo do cangaço”, com títulos como A Morte Comanda o Cangaço (1960), Lampião, o Rei do Cangaço ( 1962) Cangaceiros de Lampião (1966) e Corisco , o Diabo Loiro (1969. Dirigiu também adaptações como A Madona de Cedro (1968), da obra de Antonio Callado e Iracema, a Virgem dos Lábios de Mel (1978), de José de Alencar. Foi um artesão, com vista dirigida ao cinema popular, sem grandes preocupações com a atualização da linguagem cinematográfica. Seu primeiro longa foi Armas da Vingança (1955) e o último Os Campeões (1981).
Antes de se tornar cineasta, Coimbra teve uma carreira de cineclubista e depois de montador. Montou, entre outros, O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte (Palma de Ouro em Cannes-1962, e Fronteiras do Inferno, de Walter Hugo Khouri, além de Elas São do Baralho, do atual telenovelista Silvio de Abreu.

Muito ligado à Cinedistri, de Oswaldo Massaini (hoje comandada por seu filho, Anibal Massaini Neto), Coimbra dirigiu para a empresa Lampião, o Rei do Cangaço e Corisco, o Diabo Loiro, tidas como produções classe A, caras para a época. Aliás, a carreira de Carlos Coimbra deve ser analisada por sua participação importante no chamado “ciclo do cangaço”, tendo dirigido quatro longas-metragens do gênero.

Esse ciclo começa com O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, produção da Vera Cruz que ganhou o prêmio de melhor filme de aventuras em Cannes e tornou-se grande sucesso internacional. Abriu um veio e Coimbra foi um dos diretores que o exploraram com maior competência. O ciclo teve tanto sucesso que o crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva o apelidou de “nordestern”, ou seja, faroeste nordestino. O curioso é que a maioria desses filmes era rodado aqui mesmo, no interior de São Paulo, para não onerar demais a produção. Essa tradição foi inaugurada com o próprio O Cangaceiro, cujas imagens do semi-árido nordestino foram captadas na região de Itu.

Durante o ciclo, os atores migravam de uma produção a outra. Alberto Ruschel, o galã gaúcho de O Cangaceiro, reaparece anos depois no elenco de A Morte Comanda o Cangaço, e Milton Ribeiro, o eterno malvado, ressurge em Cangaceiros de Lampião. Eram histórias que, com sua mescla de romance e violência, se transformavam em filmes de grande apelo popular. Eram “fitas” de entretenimento e assim cumpriam sua função.

Como fenômenos populares, foram levados a sério pelos estudiosos. A pesquisadora Lucila Bernardet escreveu um estudo estrutural dos personagens do ciclo do cangaço encontrando constantes interessantes neste grupo de filmes, entre eles o de Coimbra. Há neles, quase sempre, o cangaceiro “mau”, vocacionado para o crime e incorrigível. Em geral, é o chefe do bando. Também há, entre eles, o cangaceiro “bom”, que abraçou o crime por motivos diversos, uma injustiça, por exemplo. E aparece também a mocinha, que deverá ser salva, com o cangaceiro bom lutando contra o mau e reintegrando-se à sociedade. O artigo se chama Cangaço – Da Vontade de se Sentir Enquadrado. A estrutura do filme de cangaço aproxima-se assim do melodrama conservador. Mas deu frutos diferentes mais adiante, quando, reciclado, inspira uma obra-prima do cinema político como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha.

Revista, a maioria desses filmes se revela datada. Têm o interesse histórico de um momento do cinema industrial no País. E também por terem atraído para seus elencos atores de peso como os já citados Alberto Ruschel e Milton Ribeiro, mas também Leila Diniz, Mauricio do Vale, Gloria Menezes e Leonardo Vilar.

Durante o regime militar, por ocasião do sesquicentenário da Independência, Coimbra lançou Independência ou Morte, no qual Tarcísio Meira faz o papel de Dom Pedro I. Na história do cinema brasileiro é um caso isolado de filme patriótico e comemorativo, veio que acabou não vingando mesmo durante a ditadura. Coimbra deveria dirigir o remake de O Cangaceiro (1997)mas por problemas de saúde não pôde fazê-lo e o filme acabou ficando a cargo de Anibal Massaini. Em 2004, o cineasta ganhou uma biografia pela coleção Aplauso – Carlos Coimbra: um Homem Raro – escrita pelo crítico do Estado Luiz Carlos Merten.