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Percy Jackson, o Ladrão de Raios

Luiz Zanin Oricchio

18 Fevereiro 2010 | 20h06

As primeiras cenas são legais, com o mar em fúria e a chegada de dois deuses mitológicos – Zeus e Poseidon – prevendo uma guerra caso um feixe de raios ritual não seja devolvido. Corte para o garoto que mergulha na piscina e consegue ficar embaixo d’água sete minutos sem respirar. Está em seu elemento. Depois ficamos sabendo que Percy Jackson, que dá título ao filme, é, na verdade, filho de Poseidon, o deus dos oceanos. Ele vive com a mãe, uma mortal, e o padrasto, um ser repelente. Percy, portanto, é filho de um deus e uma mortal. Um semideus, no jargão da mitologia grega.

Aí estão os principais elementos do filme. Um ambiente mitológico, porém no tempo presente. Um adolescente que desconhece sua origem, porém a descobre. O herói que se forma ao enfrentar perigos terríveis. Seus aliados: um sátiro, que o protege como um anjo da guarda (sátiro negro, para preencher a cota) e uma beldade semideusa, que começa como rival e termina como amiga. Perigos a enfrentar: outros seres mitológicos “do mal”, como as Fúrias e a terrível Medusa, esse ser feminino de cabelos de serpente e olhar que transforma os outros em estátuas. Não se sabe se o olhar de Uma Thurman já fez alguém virar estátua de sal, o que é até possível. Em todo caso, ela é quem interpreta a Medusa.

A ideia até que seria boa – uma reciclagem da mitologia grega, um dos mais empolgantes conjuntos de fábulas já criados pela humanidade, em algo palatável para adolescentes do século 21. É pena que isso se faça não por meio de uma adaptação inteligente, mas pela diluição dos mitos. Parece que os produtores do filme tiveram medo de que a alusão ao mundo antigo soasse anticomercial. Assim, colocaram âncoras muito fortes no presente para que a história não ficasse com o estigma do passado. Entre essas âncoras figura o persistente merchandising de um iPod, que serve inclusive de espelho para enxergar a Medusa sem o perigo de fitá-la de maneira direta.

Além disso, houve a preocupação de fazer de Percy Jackson um filme de ação, mesclando humor a sustos – tudo segundo o que se presume seja uma estética de agrado dos teens, fregueses potenciais do produto. O primeiro susto até que é bom – quando uma professora de ar soturno mostra sua verdadeira natureza e se transforma em Fúria. Mas depois o procedimento vai enfraquecendo à força da repetição. Quando os heróis enfrentam seu enésimo monstro digital já não prestamos muita atenção à luta e torcemos para que a cena termine logo e venha outra, talvez com alguma novidade.

Não vem. Percy Jackson se arrasta como produto previsível, no qual a inclusão da mitologia é mero pretexto para a fórmula “sustos, romance & humor” que fazem o sucesso dessas franquias adolescentes. Também é de rigor a inclusão de alguns nomes famosos no elenco. Assim, ao lado do candidato a queridinho teen, Logan Lerman, que interpreta o papel-título, há os já rodados Uma Thurman e Pierce Brosnan (ex-007), além da exuberante Rosário Dawson como Perséfone. Está tudo aí. Só falta a história.

(Caderno 2, 18/2/10)