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Pequenas Histórias

Luiz Zanin Oricchio

13 de julho de 2008 | 16h38

Se existe uma beleza da simplicidade ela está nessas Pequenas Histórias, novo filme de Helvécio Ratton, diretor de filmes como Menino Maluquinho e Batismo de Sangue. Aliás, nota-se por esses exemplos, a diversidade de interesses do cineasta mineiro: histórias infantis, uma adaptação de um Eça de Queirós menos conhecido (Amor & Cia.) e a versão para a tela da via-crúcis de frei Tito Alencar, descrita no livro de Frei Betto, Batismo de Sangue, seu trabalho anterior.

Aliás, depois de trabalho tão pesado, é provável que Ratton tenha resolvido se dar um tempo, um refresco, e fazer quase que um divertissement à moda mineira. Mas daquela Minas ancestral, das histórias de caboclos e sertanejos, embora um desses relatos mínimos se passe em plena cidade e na época consumista do Natal. Ratton busca a simplicidade não apenas nos enredos, mas na própria maneira de filmar, no estilo de colocar a câmera, sem invenções, sem qualquer preocupação em fazer uma firula, um movimento virtuosístico. Destoaria do espírito do projeto.

Marieta Severo aparece no papel da condutora da narrativa. Ela introduz cada uma das histórias, enquanto tece uma espécie de tapeçaria, tendo por fundo um cenário bucólico. Na primeira das histórias, um pescador (Maurício Tizumba) deixa-se tentar pela Iara (Patrícia Pillar) que lhe promete amor…e peixe à vontade, desde que ele prometa nunca maltratá-la. Na segunda, um menino, forçado pela família a ser coroinha da Igreja, deixa-se impressionar pelas histórias de assombrações, em particular de uma tal de procissão dos mortos, que teria lugar na última sexta-feira de cada mês. A terceira traz o grande Paulo José no papel de um ator envelhecido que não encontra outro serviço para pagar a pensão do que vestir-se de Papai Noel na véspera do Natal e exibir-se para as crianças em uma loja. Na última, Gero Camilo vive um tal de Zé Burraldo, que faz por merecer o nome.

Como acontece em quase todos filmes de episódios, uns são melhores do que os outros mas, neste caso, nenhum deixa de ter interesse. Os dois últimos são os melhores, em particular o de Zé Burraldo, que tem encantado as platéias onde o filme já foi exibido. Paulo José consegue ser cômico e dramático ao mesmo tempo, duplicidade apenas reservada a atores do seu nível. E Gero, que quem o conhece sabe que é um rapaz inteligente, usa de toda a sagacidade para fazer um personagem tão tapado que dá até pena.

(Caderno 2, 11/7/2008)

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