As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Peões e Entreatos

Luiz Zanin Oricchio

02 de dezembro de 2006 | 13h06

Mexendo num computador movido a lenha aqui de casa, encontrei a matéria que fiz sobre os documentário Peões e Entreatos, na época do lançamento no cinema, e sob uma conjuntura política totalmente diferente da de hoje. Transcrevo o texto, que foi publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 2004. Vocês me dirão se esse texto que embrulhou peixe faz tempo ainda tem algum interesse:

Pode-se dizer que Peões e Entreatos são dois filmes notáveis, ou também que formam apenas um único – e também notável – filme. De fato, os dois documentários, que estréiam hoje, foram pensados em conjunto. Fazem parte de um mesmo projeto e revelam alguma coisa do verso e o anverso de um mesmo processo histórico – aquele que levou um líder de movimentos grevistas de 1979 a 1980 ao Palácio do Planalto em 2002.

Os filmes são filhos da mesma proposta, mas seguem caminhos divergentes, opostos mesmo, ainda que complementares. Entreatos, de João Moreira Salles, é um filme de observação, e joga seu olhar sobre os bastidores da campanha de Lula à presidência em 2002. Peões, de Eduardo Coutinho, é um filme de depoimentos. Ele ouve, no presente, os anônimos trabalhadores que participaram no passado das greves do ABC. Peões será exibido hoje à noite em concurso no Festival de Brasília. Entreatos, fecha o mesmo festival, fora de concurso, dia 30.

Em conversa com o Estado, os diretores falam desse projeto comum. E contam como chegaram a duvidar de que eles pudessem ser feitos, em especial Entreatos, um retrato dos bastidores de um poder em formação. “No começo, achei que seria o registro sobre a impossibilidade de fazer um filme. A grande surpresa foi ter o acesso foi permitido e de maneira extraordinária. No primeiro dia de filmagem eu já tinha um material que não conheço igual em filme sobre política e sobre o poder. Lula buscando apoio do grande capital. Ligando para o José Cutrale, tentando o apoio do empresariado, desejando esse apoio e me deixando filmar isso, tudo me pareceu extraordinário”, diz João Moreira Salles.

A opção de Coutinho o levou em direção oposta. Se Moreira Salles registrava sobretudo imagens e falas de gente de alguma forma já ligada ao poder, Coutinho procurou aqueles que, segundo ele, eram o seu contrário, pois “nada tinham a perder”. Gente do povo, gente anônima, que havia participado, de forma decisiva ou forma lateral, das longínquas greves do ABC. Peões é um documento extraordinário, que deve ser visto tanto com a razão como com a emoção. Porque nele se ouve a fala da esperança, a reconstituição de um momento que todos sentem como crucial em suas vidas, mas também um ruído de fundo melancólico, porque aquela utopia buscada não se concretizou.

“De fato, existe um arco melancólico que passa nos dois filmes: são as condições dadas do mundo de hoje. Eu pessoalmente não acredito na ruptura, mas acho interessante sob a forma da utopia, e ela existe no filme do Eduardo, naquele Lula que enfrenta o regime militar. Aquele Lula propõe um sonho muito maior do que o Lula do meu filme. Aqueles que buscavam no meu filme algum resto dessa utopia ficarão entristecidos. O Lula é aquele que desejou ganhar a eleição e para ganhar precisou se desfazer de qualquer tipo de sonho. Não é decepção –é a percepção da realidade” diz Moreira Salles.

Coutinho concorda: “Na época da campanha de 2002 eles queriam fazer um comício no Estádio de Vila Euclides, palco das grandes reuniões do tempo da greve. O comício eleitoral acabou não sendo feito e várias desculpas foram dadas, que o estádio não tinha condições, etc. O fato é que hoje, um comício político do Lula, não encheria o estádio, seria um fracasso” .

João Moreira Salles acrescenta: “Essa melancolia é a do desaparecimento desse mundo. Naquela época, parar São Bernardo significava parar o Brasil, hoje não significa mais nada. O processo produtivo se esfacelou se espalhou pelo Brasil e para fora também. É desalentador você achar que só exista um único discurso, uma grande narrativa no mundo e acho que o Lula seguiu essa Realpolitik. O que está no filme é a aceitação da regra do jogo”.

Tanto Peões como Entreatos estão sendo lançados num momento complicado mas também muito rico da história nacional. O governo atual segue a política econômica traçada pelo anterior, num reconhecimento da força das coisas, da inércia dos determinantes macroeconômicos e do pouco espaço de manobra concedido para as utopias e as rupturas. Há alívio de um lado e frustração de outro.

E, no entanto, segundo os documentaristas, esse Lula de hoje, que decepciona a esquerda do seu próprio partido, é no fundo o mesmo Lula da época das greves. Só não vê quem não quer.

Segundo João Moreira Salles, Entreatos ajuda a enxergar essa característica do presidente: ” O sintoma do filme é esse: dá sinais de que o Lula não é o homem da ruptura e nem nunca foi o homem da ruptura. A ascensão social dele revela não um desejo de ruptura mas de incorporação.” O cineasta cita duas cenas. Numa delas Lula conta da sua felicidade quando comprou um TL, antigo modelo da Volkswagen, e diz que “se sentiu um rei” no volante do carro de segunda mão. Em outra, o atual presidente conta que ficou decepcionado quando o censo do IBGE passou em sua casa e só pediu os dados dos moradores e não quis saber que seus bens de consumo lá existiam. “Isso é o essencial, é o mesmo Lula, com o mesmo sonho de acesso aos bens materiais, a uma vida que é burguesa, ou pelo menos de classe média”, diz Moreira Salles.

Entreatos fincou sua barraca no olho do furacão, no centro duro de um poder em formação. Eram esperados problemas, que surpreendentemente não vieram. Coutinho trabalhou mais na periferia, com personagens menos controversos e portanto não esperava nenhum tipo de complicação. E no entanto ela veio, sob a forma de uma cena cortada, em que uma funcionária de lanchonete dizia que nos tempos do ABC o presidente bebia muito. Coutinho se explicou longamente sobre a cena e reafirma que a podou da versão final para “proteger a personagem e não o Lula”.

Mas Coutinho acha que não adianta, que sua decisão foi soberana, mas ninguém vai acreditar nela mesmo: “Tudo isso é natural, porque como você está mexendo com a política, entra nessa coisa terrível que é ética da suspeita, na qual tudo é suspeito. Então se começa a falar muito de ética, o que é terrível, porque quem mais fala de ética são os patifes. Você entra num outro mundo, e como desfazer esses equívocos?”

João acrescenta: “O problema de fazer um filme como o meu é as pessoas acharem que ele existe para repercutir alguma coisa do noticiário. A bebida é um caso específico, a briga de galo é outra. Mas o filme está pronto desde dezembro do ano passado. É um filme vivo. Porque Lula é presidente, está gerando notícias todo dia e à medida em que essas notícias aparecem elas vão gerando novos sentidos no filme. Eu jamais supus que aquela seqüência que eu acho magnífica, em que o Lula descreve a sua jornada de trabalho pudesse ser abafada pela questão da bebida. Ali tem alguma muito mais importante do que saber se ele bebe ou não e que pode ser resumida assim: o que é ser um operário no Brasil, o que é trabalhar numa fábrica, naquelas condições, e ter coragem de dizer que não gosta daquilo, que não sente saudades da fábrica mas dos amigos.”

São dois filmes para serem vistos com muita atenção – e algum afeto, se possível. Dizem mais sobre o Brasil de hoje e de ontem do que muitos tratados de história e sociologia.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.