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Pensamento único *

Luiz Zanin Oricchio

16 de abril de 2013 | 08h19

Repercutiu bastante a entrevista do ex-jogador alemão Paul Breitner, campeão do mundo de 1974, ao Canal ESPN. Foi interessante mesmo.

Poderia gastar páginas e páginas comentando o aspecto formal da fala de Breitner. Resumo numa frase. Ele fala com o tom de voz um oficial da SS em filme americano da 2ª Guerra Mundial. Não é chegado a nuances e vive em estado de certeza inabalável.

Mas, deixando esse aspecto de lado, Breitner disse muita coisa certa. E também muita bobagem, a meu ver. Detonou a Premier League inglesa com a desfaçatez de quem se livra de um mosquito incômodo. Mas, simplificações à parte, deu uma dentro: disse que os ingleses se renderam ao culto do dinheiro, achando que com isso fariam um bom futebol. O que são aqueles times, são ingleses?, pergunta. E eu também pergunto: verdade, mas nas outras ligas europeias isso é muito diferente?

Sobre o Brasil, Breitner diz que vegetamos na Idade Média futebolística. Estamos desatualizados: “Vocês vivem em 2002”, Nesse ponto, acho que foi até bonzinho. A meu ver, a última vez que uma seleção do Brasil jogou à brasileira foi não em 2002, mas em 1982. Naquela fatídica Copa da Espanha, na eliminação pela Itália em Sarriá, desacreditamos do nosso estilo e o jogamos fora.

Como perdemos a confiança em nós mesmos, e como os europeus nunca nos levaram muito a sério (a não ser quando, para sua surpresa, ganhávamos Copa atrás de Copa), o terreno ficou aplainado para o que viria a seguir. Ou seja: o abandono de uma ideia de jogo própria, a adoção do modelo exportador-extrativista de jogadores jovens e o consequente sucateamento do futebol praticado dentro do país.

O Brasil passou a viver de sucessos esporádicos e confiou em que a vitória viria pela adoção de um modelo que se anunciava único. Assim como nos anos 1990 julgava-se que a economia liberal significava o fim da História, no jogo da bola falou-se numa espécie de “futebol mundial”, que seria praticado por todos, seguindo o modelo europeu. A variação viria apenas pela qualidade dos jogadores em campo. E essa qualidade, claro, estaria concentrada no próprio continente europeu, berço do capitalismo e capaz de organizar o jogo de maneira a atrair os talentos do mundo todo e, num processo circular, torná-lo lucrativo como nunca fora.

Dessa forma, estabeleceram uma espécie de utopia futebolística em que os melhores jogariam contra os melhores, enquanto o resto do mundo se contentaria com o papel de plateia e fornecedor de matéria-prima. Exportamos o artista e pagamos para vê-lo pela TV, depois de devidamente burilado pela cultura futebolística europeia. Nos países periféricos os times se tornaram biodegradáveis, tendo de se refazer a cada temporada depois de vender suas estrelas. Sem atletas radicados em seus países de origem, as  seleções nacionais se desnacionalizaram, Batizaram esse processo com o nome de “futebol global”.

A arrogância de Breitner deve ser entendida neste contexto eurocêntrico. Assim como a sua contrapartida lógica, do outro lado do balcão: a humildade resignada com que suas palavras são ouvidas e acatadas entre nós. Com honrosas e raras exceções.

* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão 

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