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Dinheiro não fede

Luiz Zanin Oricchio

10 de abril de 2007 | 15h46

“Pecunia non olet”. Essa frase latina pode ser traduzida por “dinheiro não cheira”; ou, com mais propriedade: “dinheiro não fede”. É atribuída ao imperador Vespasiano (século 1 d.C.), que a usou como resposta ao filho Tito quando este o censurou por criar um imposto sobre os mictórios públicos de Roma. Pragmático, Vespasiano entendia que o odor das fezes e da urina não contaminava a bem-vinda grana que viria desse modo para os cofres do império. Lembrei-me da frase ao ler a notícia de que o magnata Boris Berezovski está livre para vir ao Brasil sem correr risco de ser extraditado para seu país natal, a Rússia, onde responde por vários crimes – lavagem de dinheiro, financiamento de guerrilhas, fraude e até assassinatos. Berezovski vive em Londres, de onde não pode ser extraditado para a Rússia.

Sua livre entrada no Brasil, com garantia de que não será molestado, a despeito das pressões do governo russo, se dá sob os bons auspícios do deputado do PT Vicente Cândido. Segundo Cândido, Berezovski poderá entrar no Brasil com o mesmo status que goza na Inglaterra, o de exilado político. Muito bonito isso. Abriga-se o russo porque ele seria perseguido pelo governo Putin e não um acusado de crimes comuns.

Ah, sim. Em troca, espera-se que Berezovski invista cerca de R$ 1 bilhão no País, em vários setores: da aviação à construção de um estádio de futebol em São Paulo. Em tempo: Berezovski é tido como o verdadeiro dono da MSI, empresa que arrendou o futebol do Corinthians e era operada aqui pelo senhor Kia Jorabchian, provavelmente um testa-de-ferro. O Ministério Público investigou as ações da MSI no Brasil e concluiu por fortes indícios de lavagem de dinheiro e ligações com a máfia russa. Nada foi feito. Agora é um deputado do PT quem patrocina a vinda do chefão.

Estou tentando entender esse imbróglio todo, mas confesso que ainda não fui além de uma sincera perplexidade, em especial pelos personagens envolvidos.

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