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Pecados Íntimos: somos todos criancinhas?

Luiz Zanin Oricchio

12 Fevereiro 2007 | 09h47

Dizem que a frase atribuída a Caetano Veloso – ‘de perto, ninguém é normal’ – pertence na verdade a Leon Tolstoi. Não se sabe. Mas é de Tolstoi, com certeza, a famosa primeira sentença de Anna Karenina, aquela que diz que toda família feliz é igual e cada família infeliz o é à sua própria maneira. As duas frases, independentemente de autoria, podem ser aplicadas ao filme de Todd Field, Pecados Íntimos, adaptação de um romance de Tom Perrota.

A idéia é investigar o mal-estar latente em uma em aparência idílica cidade do interior. Tal como Beleza Americana, Pecados Íntimos busca também essa nota de dissonância em relações humanas idealizadas na cidade grande. A situação na pequena cidade parece hilária, quando não vista pelo ângulo trágico: todos se consideram pilares da moralidade e olham com horror para a aberração mais visível – um molestador de crianças que passou um tempo preso e agora está à solta na comunidade. Interpretado pelo ótimo Jack Earle Haley (candidato ao Oscar de coadjuvante), Ronald parece talhado para bode expiatório. Todos podem considerar-se a salvo e ‘normal’ porque sobre ele são depositadas as ‘anormalidades’ de cada um.

O fato é que as exigências da sexualidade, ou a simples necessidade de afeto, não deixam ninguém em paz. E todos se comportam com os traços infantis descritos por Freud – agressividade e egocentrismo, acima de tudo. Daí o título original, Little Children, que deveria, talvez, ter sido traduzido de maneira literal. O que o filme indica é que somos todos criancinhas, imediatistas, autocentradas e não gostamos de nos responsabilizar por nossos atos.

Não fosse a maneira de filmar de Todd Field, Pecados Íntimos poderia parecer um tratado moralista. Não é nada disso. Field trabalha à maneira de Altman, de maneira simpática em relação aos personagens (afinal, somos todos humanos, ou não?), dialética, descritiva sem propensão a julgamentos. Introduz ainda uma narrativa em terceira pessoa sobre as imagens, que dá ao filme um tom distanciado, de fábula moral, algo a que estaríamos assistindo, fora de nós, mas que, de alguma maneira, nos diz respeito de maneira muito próxima. A boa narrativa é assim: nos mostra que tudo aquilo é uma obra e não a vida em si. Ao mesmo tempo, nos faz reconhecer que o que vemos tem sentido para nós e nos convida à reflexão. É de Horácio a frase latina que serve para toda ficção bem-sucedida: ‘De te fabula narratur.’ A história fala de você.