Pecados do Meu Pai
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Pecados do Meu Pai

Luiz Zanin Oricchio

14 de maio de 2010 | 09h08

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A constatação é evidente, quase acaciana, mas deve ser dita: o que há de notável no documentário de Nicolás Entel é o olhar sobre a vida de um notório criminoso pelo ponto de vista do filho. O depoimento de Sebastián Marroquín, nome adotado por Juan Pablo Escobar para reiniciar a vida, é muito forte. Costuma-se dizer que os filhos não podem pagar pelos pecados do pai. Mas o filme mostra que, na prática, essa transferência de culpa de fato acontece mais do que estamos dispostos a admitir.

 

Juan Pablo tinha apenas 16 anos quando seu pai, o meganarcotraficante colombiano Pablo Escobar, foi morto a tiros pela polícia. Na época, emocionado, o filho jurou vingança. Sua voz de adolescente está lá gravada por uma repórter que lhe dá a notícia e o entrevista no calor da hora. Mas a continuação de sua vida será um desmentido dessa ameaça juvenil. Para salvar-se com a mãe, Maria Isabel Santos, Juan Pablo foi obrigado a deixar o país e estabelecer-se em Buenos Aires. Mesmo lá teve problemas. Foi chantageado e chegou a ser preso. Maria Isabel também passou algum tempo na cadeia. Não se é filho ou viúva de Pablo Escobar impunemente.

Pecados de Meu Pai mescla essas entrevistas com material de arquivo. Ao lado do aspecto humano do caso, não deixa de documentar o processo de formação dos poderosos cartéis das drogas na Colômbia, país que chegou a exportar 80% da cocaína consumida no mundo. Em seu apogeu, Pablo Escobar, no comando do cartel de Medellín, dominava o país com seu poderio econômico. O fausto em que vivia é lembrado pelo filho e mostrado em imagens. Em sua propriedade, a Hacienda Nápoles, Escobar mantinha um zoo privado. Importava animais do mundo todo e pagava caro pelos espécimes. Não havia limites para gastos, pois o dinheiro das drogas fluía livremente. Com a fortuna, Escobar deitou raízes nas instituições do país. Políticos e juízes estavam em suas mãos. Criou-se até uma legislação especial para que não fosse deportado.

Quando começou a ser importunado pela Justiça, Pablo Escobar ainda dispunha de poder suficiente para projetar ele mesmo a cadeia onde iria cumprir pena, um palácio atrás das grades chamado La Catedral. O cinismo da coisa é de espantar. A gaiola de ouro de Escobar parecia símbolo de um poderio que jamais terminaria. Uma ilusão, é claro, pois até ele conheceu o declínio e, por fim, foi liquidado pela polícia quando estava foragido.

Juan Pablo, aliás, Marroquín, testemunhou tudo isso na condição de filho. Usufruiu o luxo e o poder. Sofreu na pele quando o traficante passou a ser perseguido pela polícia depois de um longo período de impunidade. Diz que aprendeu a lição de que o dinheiro da droga não valia nada quando estavam cercados num bunker. “Com milhões de dólares à disposição, não podíamos comprar sequer um quilo de arroz para matar a fome. Usávamos as cédulas para alimentar o fogo na lareira.” Depoimento poderoso, como disse, construído por experiências desse quilate.

Talvez o mais impressionante sejam os encontros de Marroquín com os filhos de homens assassinados por seu pai, como o ministro da Justiça Rodrigo Lara Bonilla e o candidato à Presidência da República Luis Carlos Galán. Certo, há o lado um tanto constrangedor dessas reuniões negociadas pela produção e registradas pelo documentarista. A câmera está lá e ninguém a ignora. Muito menos os filhos dos assassinados, hoje homens importantes na Colômbia. Mas, que diabo, apesar disso tudo, são cenas emocionantes. Afinal, para as câmeras ou não, é a reconciliação do filho do assassino com os filhos das vítimas.

?(Caderno 2, 14/5/10)

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