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Paulo Perdigão e a Copa de 1950

Luiz Zanin Oricchio

04 Janeiro 2007 | 13h22

Registro, com alguns dias de atraso, a morte do crítico Paulo Perdigão, ocorrida dia 31 de dezembro, aos 67 anos. Paulo não foi apenas um crítico de cinema. Era especialista em Jean-Paul Sartre e no existencialismo. Traduziu para o português a maior obra de Sartre, O Ser e o Nada, e escreveu um livro de interpretação sobre o filósofo. Deixa outro volume inédito, sobre Heidegger, que terá publicação póstuma. Escreveu também um livro sobre seu filme de cabeceira, Shane – os Brutos também Amam, de George Stevens, e foi programador de filmes da TV Globo. Interessou-se pelo rádio e deixou um trabalho muito engraçado, e denso, sobre o programa humorístico PRK-30.

O futebol foi outra praia que Perdigão freqüentou, com muita propriedade. Sem nunca tê-lo conhecido pessoalmente, tenho para com ele uma dívida de gratidão – usei como obra de referência seu Anatomia de uma Derrota ao escrever meu livro Fome de Bola – Cinema e Futebol no Brasil. Esse livro de Paulo Perdigão é obrigatório para quem for pesquisar sobre a mítica derrota do Brasil para o Uruguai no final da Copa de 1950. Reproduz o jogo (do qual restam poucas imagens), minuto a minuto, através de uma minuciosa pesquisa nas transmissões de rádio da época. E finaliza o estudo com um conto estranho. Nele, um personagem, atormentado pelo jogo, que havia assistido como criança, vale-se de uma máquina do tempo para voltar àquele fatídico 16 de junho de 1950 e tentar mudar o resultado. Sua idéia é prevenir o goleiro brasileiro Barbosa de que o atacante Gigghia iria chutar em seu canto baixo esquerdo e assim ajudá-lo a evitar o gol. Mas ninguém muda o que a História já escreveu.

Escrever esse livro – e esse conto – foi a forma de Perdigão exorcizar seu próprio trauma: ainda menino, ele havia estado no Maracanã em companhia dos pais e jamais pudera esquecer aquele lance fatídico. O conto está na origem do belo curta-metragem Barbosa, dirigido por Jorge Furtado e Anna Luiza Azevedo.