Paulo Emilio e a casa do cinema ameaçada
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Paulo Emilio e a casa do cinema ameaçada

Luiz Zanin Oricchio

27 Julho 2016 | 11h33

cinemateca

 

Este ano comemora-se o centenário de Paulo Emilio Sales Gomes (1916-1977).

Paulo Emilio foi o nosso principal crítico, ensaísta brilhante, um dos maiores intelectuais deste país. Quem tiver dúvidas leia os ensaios que escreveu para o Suplemento Literário de O Estado de São Paulo e que estão reunidos em livros. Ou leia sua biografia pioneira de Jean Vigo. Ou o estudo incontornável Humberto Mauro, Catagueses, Cinearte, sobre o cineasta mineiro. Paulo Emilio fez parte da geração da revista Clima, com Antonio Candido, Ruy Coelho, Decio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado. Entre tantas outras coisas, Paulo Emilio foi um dos fundadores da Cinemateca Brasileira.

 

paulo emilio

Depois de uma história marcada por idealismos e percalços, a Cinemateca conseguiu estabelecer-se numa linda sede, onde ficava o antigo matadouro da cidade. Testemunhei a edificação trabalhosa desse patrimônio, ao longo da gestão de Thomas Farkas. Havia muito mato e poucos prédios. Devagar, as coisas foram sendo construídas e a Cinemateca hoje é, ou seria, uma das mais importantes do mundo, com suas duas salas de exibição, acervo, técnicos especializados em restauro, maquinário, etc.

A Cinemateca chegou a esse estágio e ao esplendor anos atrás. Com a passagem de Marta Suplicy pelo MinC os problemas começaram. Estava em curso um projeto do professor Bresser-Pereira de dar autonomia à casa, transformando-a em OS (Organização Social). Não sei como isso ficou.  

Ontem, a cúpula da Cinemateca, incluindo a coordenadora-geral Olga Futemma, foi exonerada. Olguinha, como é conhecida, é mulher de cinema, de cinemateca, com longa folha corrida de serviços prestados à casa, e à causa.

Sim, porque uma Cinemateca é uma causa, não um balcão de negócios. É da memória fílmica que se trata. Memória do país e do mundo, porque a Cinemateca tem um incrível acervo de filmes estrangeiros também, de clássicos. É uma memória, repito.

Uma Cinemateca tem de ser gerida por gente que tenha muito clara essa dimensão histórica da instituição. E um país tem de decidir se quer ou não quer uma instituição desse porte. Porque uma Cinemateca é cara, exige equipamentos, pessoal especializado, etc. Tudo custa. Mas a cultura não tem preço, não é? Ou será que tem?

No centenário de Paulo Emilio, a casa por ele fundada está ameaçada. Ela  já resistiu a catástrofes e a incêndios.

Não resistiria a uma gestão neoliberal da cultura.