Pauline Kael, a clareza e a necessidade dos heróis
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Pauline Kael, a clareza e a necessidade dos heróis

Luiz Zanin Oricchio

19 de novembro de 2010 | 12h29

Nunca entendi direito por que Pauline Kael, crítica por 30 anos da New Yorker, e muito influente por aqui nos anos 60 e 70, tinha caído de moda no Brasil. Parece que hoje ninguém a lê.

Pois eu leio, pelo menos de vez em quando. Folheando seu livro I Lost It at the Movies, a propósito de Sindicato de Ladrões, acho que descobri o motivo de Pauline ter sido esquecida: ela escreve claro, e foi isso que caiu de moda.

Hoje parece de bom tom escrever críticas de cinema de um jeito retorcido, com frases que têm de ser lidas e relidas várias vezes até que façam algum sentido. No mais das vezes, por mais que você torture o texto, não consegue extrair dele sentido algum. É uma profissão de fé na obscuridade, um terrível vício acadêmico.

Abaixo, um exemplo do texto de Pauline Kael, que escrevia como gente. E para gente.

“A tentativa de criar um herói para a audiência de massa é um desafio e uma grande armadilha. Sindicato de Ladrões enfrenta o desafio, mas cai na armadilha. A criação de um simples herói é um problema que não ocorre com freqüência em filmes europeus, nos quais o esforço é despendido em criar personagens que nos toquem mais por sua humanidade – sua fraqueza, sua sabedoria, sua complexidade – do que por suas dimensões heróicas. Nossos filmes (i.e., norte-americanos), entretanto, negam a fraqueza humana e as complexidades sobre as quais os europeus tanto insistem. É como se nos recusássemos a aceitar a condição humana: não queremos ver-nos em trapaceiros, em seres traídos e covardes. Queremos heróis, e Hollywood os produz com um estalar de dedos.”

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