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Paul Leduc no Festival de Cinema Latino-americano

Luiz Zanin Oricchio

24 de julho de 2007 | 16h56

Amigos, está rolando em três pontos da cidade (Memorial da América Latina, Cinesesc e Cinemateca Brasileira) o 2º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que segue até domingo. Tem muita coisa legal para ver. Filmes que, em geral, não chegam ao circuito comercial brasileiro. Para quem gosta de ver alguma coisa diferente na tela, esta é a chance. O destaque é uma retrospectiva do diretor mexicano Paul Leduc, que está em São Paulo acompanhando a mostra. Abaixo, segue texto sobre Leduc.

Nada mais oportuno que uma retrospectiva do mexicano Paul Leduc, autor do belo filme Frida, Naturaleza Viva (1983), ainda pouco conhecido no Brasil. No ano do centenário da pintora Frida Kahlo (1907-1954) talvez seja ocioso comparar esse seu retrato sensível com o embrulho romântico que fez Hollywood, usando a mesma personagem (com a bonitona Salma Hayek).

Já a Frida de Leduc é de outra ordem. Com Ofelia Medina como intérprete, Leduc leva o espectador ao ambiente revolucionário que era o da pintora e do marido, Diego Rivera. Trótski, perseguido por Stálin, asilou-se no México e lá foi assassinado por Ramon Mercader, a mando do tirano. Frida e Trotski foram amantes. Essa vida intensa foi tumultuada por graves problemas de saúde desde que ela sofreu um acidente. Frida era mulher dividida entre a dor física e uma brutal saúde da alma – dilaceramento presente em seus quadros. O que se pode dizer de Leduc é que se manteve à altura de personagem tão complexa.

Antes, Leduc já decidira enfrentar outra biografia das mais movimentadas, como se vê em Reed – México Insurgente (1973). Em 1913, o jornalista americano John Reed consegue ganhar a confiança dos revolucionários mexicanos e participa do movimento. Leduc é o primeiro a traçar um painel realista da Revolução Mexicana, vendo-a pelo ponto de vista do estrangeiro simpático à causa. Após esse batismo, Reed entra de cabeça na Revolução Russa e é sepultado como herói na Muralha do Kremlin.

De Leduc, ainda serão apresentados Etnocídio (1977) e Barroco (1991), este uma adaptação da obra do cubano Alejo Carpentier. Além deles, dois raros curtas infantis, Os Animais (1995) e A Flauta de Bartolo (1997). É um cineasta notável, com carreira típica de artista latino – assimétrica, fragmentada, com altos e baixos e longos intervalos entre os filmes. Ainda assim, vista em conjunto, é testemunha do seu grande talento. Leduc estará em São Paulo para acompanhar as projeções e proferir uma aula magna, no dia 28, às 14 h, no Memorial da América Latina.

Nesse grande painel do cinema latino-americano (120 filmes, de várias épocas), há destaque para outros grandes diretores, como o chileno Miguel Littín (O Chacal de Nahueltoro, 1969), o boliviano Jorge Sanjines (Yawar Malku, 1969) e o mexicano Arturo Ripstein (O Castelo da Pureza, 1973). Não se deve perder também a rara oportunidade de ver Os Inundados, de Fernando Birri (argentino, diretor do clássico Tire-Dié). Neste longa-metragem, Birri funde crítica social com tom picaresco para mostrar uma família que se torna itinerante em função das inundações nas regiões pobres do seu país.

Enfim, esses são apenas alguns pontos altos, paradas obrigatórias de um panorama bastante diversificado, a ser descoberto aos poucos pelos interessados. Mesmo porque a entrada é gratuita em todas as salas e sessões. Não dá para perder.

(SERVIÇO)

2.º Festival Latino-Americano de São Paulo. Cinesesc. Rua Augusta, 2.075, 3082-0213. Memorial da América Latina. Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, 3823-4600. Sala Cinemateca. Largo Senador Raul Cardoso, 207,3512-6111. Grátis. Até 29/7.

(Estadão, Caderno 2, 23/7/07)

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